INTRODUÇÃO
É de extrema importância que o
discípulo preste particular atenção à essência da presente introdução, porque
ela versa não somente sobre a filosofia de fenômenos, cuja explicação será dada
no corpo do manual, senão também sobre uma série de experiências a
realizarem-se no estado de vigília, que lhe permite adquirir gradualmente, e
por fases suaves, aquele domínio e aquela confiança em si próprio, sem os quais
lhe será impossível ser bem sucedido na vida ou tornar-se um hipnotizador de
sucesso.
Valor do desenvolvimento da Força de Vontade – A
qualidade mais admirável que o ser humano pode adquirir é a de impor a sua
vontade aos outros; essa qualidade que denominamos força de
vontade, magnetismo, etc., firma suas raízes na confiança em si mesmo,
que um estudo desta série de lições pode desenvolver até nos indivíduos mais
tímidos e arredios. Para Fazer me entender mais claramente, digo que a modéstia
e a timidez, esses dois obstáculos à fortuna, seja qual for o nome que se dê,
desaparecerão por completo no caráter daquele que seguir com cuidado as
instruções que se ministram nesta série de lições.
É necessário fazer experiência constantemente – Ao
discípulo não basta, porém, só a leitura deste curso, e nem ainda deve ele
pô-la à parte, dizendo a si mesmo que já sabe o suficiente para, de futuro,
poder fazer algumas pequenas experiências, quando se lhe apresentar a ocasião.
É absolutamente essencial que aproveite cada oportunidade que se lhe depare, a
fim de realizar cotidianamente uma ou mais experiências deste gênero. Aviso
também que deve tornar-se perito em cada experiência antes de passar as outras.
O objeto destas experiências – Para esse fim, apresento aqui uma série de seis experiências Graduadas,
cujo objetivo é desenvolver no operador aquela ponderação no caráter, à qual
denominamos confiança em si mesmo, e mostrar-lhe, ao mesmo tempo, a base das
leis pelas quais o hipnotismo se tornou um fato científico. A primeira coisa
que o discípulo deve não esquecer é o não haver necessidade de adormecer o
paciente para conseguir nele a produção de fenômenos do hipnotismo nas suas
primeiras fases.
Como evitar o fracasso – Muito naturalmente, o
principiante tem receio, antes de tudo, do fracasso, e do ridículo que pode
ocorrer; mas, como acabo de dizer, pode, desde o começo, previnir-se contra
estes dois inconvenientes.
Em
primeiro lugar: - omitindo com cuidado a palavra “hipnotismo” e arredando a
idéia de que tais experiências são de caráter hipnótico. Pode chamar, se
quiser, de experiências curiosas sobre as atrações magnéticas ou nervosas, ou
técnicas de relaxamento, afastando o fato real.
Em
segundo lugar: - explicando com muito cuidado este fato tão
evidente, que o bom resultado da experiência depende inteiramente da força do
poder da vontade e da concentração exercida pelo paciente.O operador é
um simples guia; se o paciente dispõe de força de vontade para repelir com
energia e afastar de sua mente todos os outros pensamentos, é seguro o bom êxito.
Depois de explicar isto aos pacientes e mostrar claramente que o interesse e o
valor das experiências se assentam inteiramente sobre a inteligência
determinada da cooperação deles.
Se bem
explicado estes fatos, evita-se o ridículo, preparando-se para o bom resultado.
Experiência no estado de Vigília. – As experiências seguintes tem por fim demonstrar que uma
pessoa pode exercer um império sobre outra pessoa, quando esta está de plena
posse das suas faculdades despertas:
Primeira Experiência:
Ainda
que, relativamente a esta experiência, a minha opinião é que conviria agir
sobre um certo número de pessoas reunidas, o que permitiria ter-se maior
probabilidade de se obter bons pacientes, fica subentendido que, no caso em que
o operador não alcance bom êxito em diversas pessoas ao mesmo tempo, quer por
impossibilidade, quer por embaraço, pode fazer a experiência com um si
indivíduo.
Provocação do afrouxamento
muscular – Reúna um certo número de jovens de ambos os sexos, da idade de
quinze a vinte anos, fazendo-os se sentarem em cadeiras confortáveis, em
semicírculo, a sua frente, tendo o cuidado de recomendar que não devem fazer
nenhuma brincadeira, nem ainda a mais leve, no correr da sessão. E faço um
pequeno discurso como este, por exemplo:
- “Viemos
aqui, esta noite, para fazer algumas experiências sobre os fenômenos psíquicos,
e espero dos senhores que me dirijam toda atenção e inteira cooperação no
desenvolvimento dos trabalhos, sejam quais forem, que vamos fazer. Vai ser
muito difícil sair-me bem, se não tiver captado toda a sua atenção e, se
quiserem resistir de maneira absoluta a minha influência, vai ser impossível o
bom êxito da experiência. Assim peço que por alguns momentos, permaneçam
totalmente passivos prontos para acatar minhas palavras, a fim de que possa
produzir sobre seus cérebros a impressão necessária para chegar a um resultado
efetivo. Antes de começar as experiências, peço com todo meu empenho que fiquem
em um estado de completo afrouxamento muscular, porque é a primeira coisa a fazer
para

conseguir-se um afrouxamento mental perfeito.”
Como
Sentar-se – “Sentem-se por favor, a vontade em suas
cadeiras, de maneira que seus pés se fixem em toda a largura sobre o solo;
ponham as mãos sobre os joelhos e, quando eu disser: Direita, esquerda –
levantem primeiro a mão direita, depois a esquerda, e deixem cair ambas sobre
os joelhos, brandas e inteiramente inertes. Recomendo que façam umas dez vezes
este exercício em cada uma das mãos”.
Em tal
momento você está sentado em uma cadeira em frente ao círculo de discípulos e
levantando a mão direita cerca de trinta centímetros do joelho, dizendo:
-Direita.
Efeito
do Sinal – A esse sinal, assegure-se que todos os pacientes ergam a mão
direita, imitando você e mantendo no ar durante dois ou três segundos; no
momento em que dizer: Esquerda – deixe cair o braço e a mão direita molemente e
sem força sobre o joelho e levante ao mesmo tempo a mão esquerda. Procedendo da
mesma forma com esta mão, quando repetir: Direita – as mãos esquerdas cairão pesadas
e mortas sobre os joelhos. Os discípulos começarão a compreender que a idéia de passividade que
suas palavras lhe sugeriram, está agindo sobre seus músculos de modo que se
produza um repouso físico completo; a idéia que ressalta desta experiência é, portanto, toda de afrouxamento muscular.
Depois de repetir isto cinco ou seis vezes, levante-se de sua cadeira e diga,
passando na frente de cada membro do semicírculo: “Seja completo o
afrouxamento”, levantando, no mesmo instante, a mão direita, depois a esquerda
e deixando-a recair, seguro de que eles estão inertes; no caso afirmativo,
conseguiu-se um afrouxamento muscular.
Novos
conselhos – Diga agora: “Como vocês estão se sentindo totalmente a vontade e
sem nenhuma fadiga, vou pegar cada um separadamente, para a primeira
experiência importante. Não quero absolutamente de cochichem ou conversem uns
com os outros. Prestem particular atenção à idéia que minhas palavras vão
transmitir as suas mentes. E fiquem seguros disso. Entendam que a tendência da
mente é desenvolver o pensamento sugerido. Sintam-se seguros que estão fazendo
o que vos digo, que estão sentindo o que vos digo que sintais, e obteremos
fenômenos interessantes”.

Como dirigir a primeira experiência –
Escolha entre os participantes a pessoa que lhe pareça melhor, a mais apta para
sentir sua influência e, fazendo-a ficar de pé, com as costas voltadas para o
círculo, diga que olhe nos seus olhos e fixe, ao mesmo tempo, olhe os dela na
base de seu nariz, olhando-a justamente entre ambos os olhos e não deixando
jamais arredar deste ponto o seu olhar, ainda mesmo um instante. Fale e, nestas
experiências, por exemplo, fale sempre com calma, em tom positivo, e sem
levantar a voz, como se tivesse o hábito de ser obedecido e como se pensasse
que ela deve obedecer. É bom, ao mesmo tempo, para dar mais força a influência
que tens sobre ela, repetir a você mesmo: “Deves fazer exatamente o que digo”.
Diga isto a si mesmo, e repita continuamente esta afirmação durante suas
experiências.
Como
fortificar a confiança que depositou em você mesmo – Isto terá como resultado a
fortificação da confiança que tens em você mesmo, e dar aos seus olhos aquele
olhar de decisão e de força que influenciará poderosamente as pessoas que o
rodeiam. Levante, agora, as mãos, e ponha muito de leve sobre a cabeça do
paciente, justamente por cima das orelhas, a fim de não lhes causar nenhuma
sensação desagradável, pela pressão delas no rosto. Olhe bem entre os dois
olhos, deixando suas mão nesta posição durante uns dez segundos. Então,
recuando um passo com o pé esquerdo, retire devagar e lentamente as mãos,
pondo-as a uma pequena distância de cada lado de sua cabeça e, ao mesmo tempo,
curve seu corpo um pouco para trás; as suas mãos virão reunir-se em frente a
sua fronte; desuna-as, então, com um movimento vagaroso e, curvando-se de novo
para frente, descanse as mão, vagarosamente, na mesma posição inicial. Faça
isto três vezes antes de falar.
O que
importa dizer na prova da queda para frente – Depois da terceira vez, diga
muito lentamente, de maneira que o impressione, mantendo sempre seu olhar fixo
na base do seu nariz e tendo o cuidado que ele não desvie seus olhos nem por um
segundo: -“Está na presença de um impulso atrativo que vai te fazer cair para
frente. Não resista; eu vou te segurar, deixe ir... está caindo para frente.
Não pode se opor a isto, está caindo para frente... deixe ir, assim”. Nesse
momento, o paciente, mantendo sempre os olhos fixos nos seus, se inclinará para
frente e trate naturalmente de ampará-lo para que não se machuque.
Cuide
para que o paciente não se machuque – Em todas essas experiências, tome todo o
cuidado de não deixar cair um paciente, porque, do contrário, destruirá no
mesmo instante toda a confiança que ele depositou em você, e é precisamente sobre
esta confiança que está depositada toda a influência que tem sobre ele. Depois
de apanha-lo, diga: “Tudo vai bem, está perfeitamente acordado”. Mande-o sentar
e não permita nenhuma discussão entre os membros do círculo. Deve proceder da
mesma forma com cada indivíduo, separada e individualmente, por duas razões: a
primeira é que pode determinar entre os assistentes aquele que é mais fácil de
influenciar, e a segunda, que prepara, assim, os diferentes participantes para
as experiências que vão se seguir. Não deixe estas tentativas até que se torne
mestre nelas e de estar apto para provocar essa queda para frente, em cada
paciente que exercer sua influência.
Como
fazer face à oposição e ao ceptismo – No caso de se deparar com pacientes que
sejam teimosos ou que manifestem tendência a discussão, deve dizer-lhes: - “Se
quiser, podes, sem dúvida, ter resistido a essa influência atrativa, mas eu já
disse que deve permanecer perfeitamente passivo e não posso obter bom êxito
nestas experiências com você, se as discuti comigo ou com você mesmo. Tudo o
que peço é o auxílio de sua imaginação e obediência cega. Não desejo que
analise mesmo suas sensações. Quero sua atenção totalmente absorvida por minhas
palavras”. Isto será suficiente para mostrar ao paciente da índole
argumentativa que não faz o menor caso da sua opinião e achareis que algumas
palavras nesse sentido bastarão amplamente para ter seus assistentes
completamente

dispostos à simples
obediência.
A
experiência realizada em sentido contrário – Faça, agora, a experiência no
sentido oposto, escolhendo entre os assistentes aquele que acha mais apto para
conseguir um melhor resultado na queda para frente. Chame-os uns depois dos
outros, colocando-os com a cabeça voltada para a parede e apresentando as costas
para o círculo. Conserve-os por detrás do primeiro, com as costas voltadas para
os circundantes e, colocando levemente o indicador da mão direita na base do
cérebro, justamente acima do pescoço, ponha sua mão esquerda contra o lado da
cabeça, por cima do ouvido, de forma que os dedos se achem assentes sobre sua
têmpora esquerda.
Prova
da queda para trás – Diga, agora, que feche os olhos, e retire vagarosa e
gradualmente sua mão, até que fique totalmente destacada da cabeça dele e,
enquanto vai diminuindo por graus a pressão que sua mão direita está exercendo
e, afim de que ele mal possa senti-la, vá falando: “Está, agora, sentindo-se
atraído para trás, graças a minha influência. Caia para trás, nos meus braços.
Deixe ir, logo que perceba que a ação se torna mais forte. Está caindo para
trás.” Enquanto vai dizendo isto vagarosamente, fazendo uma pausa, de palavra
em palavra repita lentamente a atração para trás, com a mão esquerda sobre sua
cabeça. Às vezes, logo, mas sempre depois que a fórmula for repetida diversas
vezes, o paciente se inclinará sobre os calcanhares e cairá, saindo da
perpendicular. Desde de que chegue a estar penso para trás uns trinta
centímetros, deve ampara-lo e dizer: “Muito bem, acorde”. Deve repetir a
experiência, dizendo: “Está bem”, mas desta vez importa ir um pouco mais longe,
reproduzindo o mesmo processo e dizendo: “Está caindo para trás e não pode
evitar. Caia direitinho em meus braços. Caí agora!” Nesse momento,achando-se na
condição mental de um executante que aprendeu a lição, cairá inteiramente nos
seus braços, dando a você maior confiança. Fazendo-o voltar a posição
perpendicular, diga:

“Ótimo! Agora acorda”.
Bata
palmas, como um sinal – Ao mesmo tempo, bata palmas, porque, mais tarde, será
bom que o paciente fique sabendo que o barulho das mãos indica o fim da
experiência. Aqui termina esta, no estado de vigília e tendes agora um guia nas
duas ou três pessoas mais facilmente influenciadas dentre os circunstantes.
Segunda Experiência:
Chamando uma das três pessoas presentes e
fazendo-a ficar de costas para as restantes, diga que olhe de novo em seus
olhos e não desvie o olhar. Estenda, agora, suas mãos para ela, com as palmas
para o ar e diga que as aperte com bastante força, tanta força quanto for
possível. Ao mesmo tempo, curve sua cabeça um pouco para frente até que fique a
uns 15 centímetros da dela.
Prova
da junção das mãos – Olhe-a, então, silenciosamente durante dez segundos e
diga, muito positiva e vagarosamente. – “Não pode desunir nossas mãos, Não pode
tira-las das minhas. Estão ligadas as minha e não pode mexe-las. Perceberá que
os músculos estão ligados. Ainda que faça força para afasta-las, não
conseguirá”. A influência que exerce o seu olhar, que se dirige em cheio para
ela, veda à sua razão o pleno domínio das suas faculdades, e verificará que sua
mente só aceita a idéia de que nele penetrou, isto é; as suas mãos estão, com
efeito, ligadas e não lhe é possível move-las.
Resistência
e seu efeito – Vai se produzir nele imediatamente, uma resistência a sugestão,
a qual se traduzirá em um esforça da sua parte, tendente a desligar os olhos
dos seus. Se ele consegue, dizei com vivacidade: “Muito bem, pode agora
retira-las, estão frouxos os músculos”. Ele pode se julgar um pouco tolo e
dizer: “Eu podia retira-las a qualquer momento se tivesse experimentado”, você
deve aquiescer ao que ele diz, assegurando-lhe, que por causa da muita atenção
que ele prestava às suas palavras, não lhe era possível desunir as mãos.
Reforço
da Impressão – A fim de impressiona-lo bastante e, ao mesmo tempo, mostrar aos
outros participantes que não existe nenhum truque na produção deste efeito,
repita sua experiência com ele, dizendo: “Vamos tentar mais uma vez, e vai
reconhecer que quanto mais atenção liga as minhas mãos, tanto menos possível
será dominar a suas mãos, até que eu diga que o faça.” Repita, então, a
experiência e verá que toda sua atenção estará ao seu dispor, durante cinco ou
seis segundos, no correr dos quais seu rosto ficará vermelho pelo esforço feito
para largar sua mão. Diga, então: “Muito bem, perfeitamente calmo e a vontade,
agora”, e quando ele as deixa ir, se os seus olhos ficam fixos no vosso, bata
palmas, ponha vossa mão sobre sua fronte, e diga: - “Muito bem, desperte
completamente”.
Exercite
até a perfeição – Cabe insistir sobre a importância que há de realizar as
experiências de maneira perfeita. Não vá com pressa pulando de uma parte para
outra. Pode não conseguir bons resultados em sete ou oito casos sobre doze, mas
isto vem de que os pacientes não adquiriram o poder de concentração. Se seguir
os nossos conselhos, a falta não é vossa e achareis sempre pelo menos três ou
quatro pacientes sobre doze, que são capazes de ser influenciados, porque a sua
natureza é dada à obediência das ordens dos outros.
Terceira Experiência:
Nas duas primeiras Experiências,
reforçou as suas ordens, pondo-se em contato com o paciente, isto é, pois
pessoalmente a mão sobre ele; mas nesta terceira experiência, vai ver que podes
demonstrar a você mesmo que já não tem necessidade de tocar no paciente a fim
de provocar nele uma perda de domínio muscular, o que é um dos fenômenos mais
surpreendentes produzidos no estado de vigília.
Ação
de influenciar sem contato – Faça, agora, um paciente sentar-se na poltrona,
mande-o voltar as costas para o círculo e avance sua cadeira para perto dele a
fim de que seus joelhos quase toquem os dele. Para esta experiência, em
particular, escolha aquele que mais se deixou influenciar nas experiências
anteriores. Ponha suas mãos bem espalmadas sobre os seus joelhos, com a palma
para dentro; incline-se para frente, de maneira que impressione, tendo os
vossos olhos fixos na base do nariz do paciente e dizendo a este que te olhe
bem nos olhos e não desvie o seu olhar sob nenhum pretexto. Ordene, então: “Junte
bem estreitamente suas mãos, com mais força, o mais estreitamente que seja
possível. Estão soldadas uma na outra e, por mais que se esforce, não vai
conseguir abri-las ou separa-las”. Diga isto pausadamente, espaçando cada
palavra, afim de o que lhe diz, lhe penetre na mente. Se o seu olhar vacila,
significa que ele está procurando resistir as sugestões; neste caso, deve
suspender imediatamente a experiência e adverti-lo de que deve prestar atenção,
estritamente.

Efeito
da concentração do olhar – Não esqueça que se cuidar para que seus olhos não
desviem dos deles ele não poderá pensar. Se lê pensar, pode resistir. Nada pode
fazer, a não ser receber a sua idéia. Entre os três pacientes que achou mais
aptos para estas experiências, não encontrará resistência alguma. Pelo
contrário, cada um deles fará o máximo possível para separar as mãos, mas não
conseguirá. Pode, agora, permitir que se continue a experiência, fazendo-a
durar uns quinze ou vinte minutos, de modo que se mostre aos outros que o
fenômeno é verdadeiro e o seu efeito dura até quando desejardes libertar o
paciente.
Análise
racional da experiência – Não podendo a mente apreender uma só idéia em
determinado tempo, se adquires a habilidade de bem fazer penetrar uma idéia na
mente do paciente, adquiri, por esse fato, a capacidade de proibir toda
oposição que esse paciente poderia fazer; em outro termos, você o dominou pela
sua influência e o encaminhou, assim, para a aquisição de poderes outorgados a
um hipnotizador competente e a um homem de negócios afortunados.
Chave
que conduz ao bom êxito – De acordo com estas lições, deve saber que, na ação
de influenciar a mente dos outros, está a chave que conduz ao bom êxito de toda
e qualquer empresa na vida. No caso em que não tenha mesmo a intenção de fazer
uso do poder que o estudo destas lições lhe confere como hipnotizador, pode ser
de maior utilidade pelo ensinamento que ele ministra de poder influenciar os
homens e as mulheres que encontra nos negócios e na vida.
Quarta Experiência:
Não
tente esta experiência sem estar bem senhor das anteriores. Escolha, dos seus
pacientes, aquele que julga ser o mais sensível, e faça-o sentar em uma
cadeira, de costas para o círculo.
Oclusão
dos olhos – Mantendo-se de pé na sua frente, diga-lhe que dirija os olhos para
os seus e não os desvie. Quando ele tiver olhado desta maneira durante uns dez
segundos, feche os olhos dele com seus dedos e ponha seu polegar e indicador
sobre pulso dele, dizendo-lhe que olhe, concentrando o seu olhar. Recomende,
também, muito devagar e de modo que o impressione: “Não pense nem raciocine um
minuto”. Empregue todas as forças concentradas da sua vontade e da sua
imaginação em acreditar no que está dizendo: “Logo que eu retirar os meus
dedos, perceberá que já não pode abrir os olhos. Terá perdido o domínio dos
músculos das suas pálpebras, os seus olhos ficarão estreitamente fechados,
inteiramente cerrados e não se abrirão”.
Resultado
de uma idéia fixa – O paciente moverá as sobrancelhas, esforçando-se, em vão,
para abrir os olhos, visto que lhe ordenaram que não os abrisse, mas produz-se
a mesma falta de domínio que a união das mãos, dado precedentemente.
Permita-lhe que faça todo o possível para abrir os olhos, e ele o conseguirá
depois de um lapso de tempo de dez a doze segundos. É bom fazer um duplo ensaio
desta experiência, a fim de que, depois de haver aberto os olhos, possa dizer:
“Muito bem, achastes a coisa dificílima, não é verdade? Vamos, agora, refazer a
experiência e, desta vez, não poderá abri-los enquanto não lhe der permissão”.
Proceda, então, exatamente da mesma forma que antes, mas quando ele fizer
diversas tentativas sem efeito para abrir os olhos, pode bater palmas e
acrescentar: “Muito bem, por agora, a influência está acabada, Recuperará agora
o domínio de si mesmo. Abri os olhos; desperta completamente”.
Ação
de tranqüilizar o paciente – Depois desta experiência que te conduz ao
hipnotismo real, fará bem em por as mãos sobre a fronte do paciente e em
falar-lhe de um modo tranqüilizador. Eu desejaria que pudesse fazer nascer no
paciente uma tal condição mental, que ele se sentisse satisfeito e com boas
disposições. Eu queria que fizesse ele ver que é seu amigo – pode facilmente –
e que tivesse o cuidado de que nada lhe fizesse mal, seja o que for. Fazei com
que suas palavras animem nele um sentimento de relações amistosas e de inteira
confiança. Verá que, nesse período, ele se tornará tão interessado como você
nesta experiência e fará sempre todo o possível para prestar atenção quando
dela tiver necessidade: não necessita de mais nada para retirar dela todo
efeito desejado.
É
impossível não ser bem sucedido – Lembre de que não pode fracassar em nenhuma
experiência que acabo de descrever se escolhe pacientes adequados e se observa
cuidadosamente, nos seus mínimos pormenores, todas as instruções que tenho
dado, não omitindo nenhuma delas.
Quinta Experiência:
Até o
presente, temo-nos ocupado com a proibição ou o afastamento da ação muscular.
Interdição
da palavra – Chegamos, agora, à proibição da palavra, o que não é senão uma
manifestação um pouco mais elevada. Achareis, talvez, que é difícil impedir a
uma pessoa acordada que se lembre do seu nome e que o enuncie em voz alta, mas,
se você não se esquecer do que eu já havia dito antes sobre a mente não
aprender senão uma única idéia num dado tempo, compreendereis como esta
experiência é tão fácil de se levar a efeito como qualquer outra das
precedentes. Importa adverti-los, porém, de que só haveis de tentar nos
melhores pacientes, isto é, naqueles em que conseguiu bons resultados nas
experiências anteriores.
Como
dirigir a experiência – Faça que o paciente se mantenha em pé, com as costas
voltada para o círculo e coloque e coloque suas duas mãos de cada lado da sua
cabeça, como na prova da queda para frente e peça, como anteriormente, que olhe
fixamente em seus olhos, enquanto você dirige seu olhar para a base do nariz
dele, como de costume. Incline a cabeça ligeiramente para o seu lado e diga em
tom penetrante: “Preste muita atenção. Esqueceste seu nome. Não pode mais
pronunciá-lo. Já não lembra mais dele. Não sabe mais. Não pode mais produzir
este som, esqueceu”. Retire sua mão e recue um passo. Coloque seu dedo na base
do nariz dele e repita claramente: “Não pode pronunciar seu nome”. Deixe um
tempo de três ou quatro segundos para
ele fazer a tentativa e bata palme, dizendo: “Muito bem, pode dizer, agora.
Qual é?” Então, ele o pronunciará imediatamente em voz alta, em tom de grande
alívio.
Não
pode pensar nem falar – Não é justo o pretender que ele se lembrasse do seu
nome e pudesse tê-lo pronunciado, porque em tal caso, como já tenho achado em
muitos outros, a memória e a palavra se tornaram impossíveis, ainda que o
paciente apresente toda a aparência de um ser acordado. Sem dúvida, ele está
desperto, mas incontestavelmente também é certo que se acha em estado anormal.
Ele sente que assim é, mas é certíssimo que está num estado de concentração que
precede o estabelecimento da hipnose, se desejarmos chegar a ela pelas
experiências no estado de vigília.
Sexta Experiência:
Chegamos, agora, a uma experiência que
apresenta uma significação inteiramente particular, tanto mais que ela mostra
como, obtido o domínio da mente de uma pessoa em estado de vigília, podemos
provocar nela uma alucinação de sensação que, naturalmente, tem um fim: o de
fazer sobressair o valor do hipnotismo como agente terapêutico.
Método
para afetar as sensações do corpo – É a todos compreensível que, se no estado
de vigília, podemos provocar uma sensação de calor na mão de uma pessoa, podeis
facilmente fazer uso da sugestão inversa para a febre ou casos semelhantes e,
no leito dos doentes, enquanto o paciente está bem acordado, atenuar
consideravelmente o aborrecimento causado pela febre ou calor excessivo, por
sugestões positivas de frescura e bem estar. O meu interesse, nesta introdução,
não é fazer você entrar nas fases do hipnotismo considerado como terapêutico,
mas não posso resistir à oportunidade que aparece de mostrar quanto este
trabalho se relaciona de perto com as ações benéficas que se podem praticar
para reconfortar os doentes. Todo experiência que você for aperfeiçoar, nesta
introdução, pode e deve ser desenvolvida sem nenhuma referência a palavra
hipnotismo.
O que
fazer – Mande o paciente sentar em uma poltrona, com as costas voltadas para o
auditório e, no momento que olhe seus olhos, mande que deixe cair seus braços e
mãos sobre os joelhos, ficando inertes. Diga, então, muito vagarosamente:
“Feche os olhos e fixe sua atenção sobre sua mão direita. Quando eu tocar esta
mão com o meu dedo, vai experimentar, no mesmo instante, uma sensação de calor
que vem vindo de trás da sua mão, até que esta se torne quente e comece a
queimar. Lembre que ela há de te queimar,. Terá uma sensação de muito calor.
Ela te queimará. Fixe inteiramente sua atenção e sentirá uma dor na mão”.
Havendo, com este fato, atraído a sua atenção, tocai muito de leve as costas de
sua mão direita com o dedo e dizei, com muito clareza: “Está queimando. Senti
calor, está experimentando uma sensação de muito calor, e te queima, está
queimando, queimando”. Quando o efeito já se produziu, bata palmas e diga:
“Muito bem, acorde: foi-se a sensação”, e tomai, ao mesmo tempo a sua mão
direita na vossa e aperte vivamente as costas da mão.
Explicação
– Há uma explicação deste fenômeno que muitos podem por inteligentemente em
prática na sua vida cotidiana; darei brevemente. Toda e qualquer concentração
da mente sobre uma parte do corpo tende a produzir um afluxo de sangue para a
parte onde dirigis a atenção. É o que chamamos “derivação do sangue” e é
possível, pela firme concentração da sua atenção sobre a sensação de calor no
pé, por exemplo, curar-te do estado conhecido como frio nos pés, pelo simples
fato da força de sua concentração. É, talvez, um dos mais belos exemplos do
poder da mente sobre o corpo; é somente a força da mente afetando a circulação
do sangue.
Onde
se assenta a base da cura – É realmente sobre tal fato fisiológico que se
baseiam as cura operadas pela ciência mental e hipnotismo, assim como pela
ciência cristã e pela auto-sugestão. Por isso temos a maior autoridade em falar
que o hipnotismo nos põe na posse dos fatos concernentes ao poder de curar que
existe no homem individual e baseado no poder que tem o pensamento em produzir
o fluxo de sangue. Está, agora, na presença de sua experiência que demandam sua
inteira atenção e completa assimilação.
Alguns
conselhos – Não tenha pressa em contar aos seus amigos o que pode fazer; vale
mais a pena não lhes fazer a menor menção, porque eles estão dispostos a te
conceder menos honra que a estranhos. Estude cuidadosamente as regras aqui
consignadas. Lembre de que, se observar todas as instruções no emprego destas
experiências, não tem como deixar de conseguir a produção dos fenômenos. Hão de
acontecer, tão certo como dois e dois são quatro. É a simples lei da causa e
efeito. Sendo dada uma certa causa, ela deve ser seguida, logicamente, de um
efeito; em verdade, ainda que os seus fenômenos sejam surpreendentes nas suas
manifestações exteriores, o hipnotismo é um gênero de estudo, cujos efeitos são
baseados sobre uma inalterável lei. Não existe fenômeno, relacionado com o
hipnotismo, que seja irracional ou ilógico. É o mais importante de todos os
estudos, o estudo dos fatos da vida.
A
experiência adquirida nos ensaios anteriores fortificarão sua confiança,
fazendo-o compreender os princípios do hipnotismo. Depois de algumas
experiências, estais certos de haverdes desenvolvido um ou mais pacientes bons
que podeis fazer entrar nas fases mais adiantadas do hipnotismo, como fica
indicado nas lições que se vão seguir e com as quais podeis dar um espetáculo
de uma profunda impressão, na presença de estranhos e de observadores dados à
crítica. Não é prudente experimentar com pacientes novos, diante dos críticos,
a não ser que já seja um mestre na arte. A sua presença exerce um efeito sobre
vos e seu paciente, cujo interesse e atenção inteira devem, como já deixei
explicado, ter um fim único e cuja tarefa delicada é assegurar absolutamente
condições harmoniosas e eliminar voluntariamente a dúvida ou análise mental da
pessoa. À medida que vai se tornando experimentado no manejo de pacientes que
já desenvolveste, vai adquirindo, inconscientemente a “Destreza” que se ganha
na familiaridade de todo e qualquer processo e os vossos bons resultados
aumentarão em proporção direta dos processos que fizerdes, tanto com os novos
como com os pacientes já provados.
O hipnotismo considerado
como agente na vida humana – O estudo do hipnotismo é o estudo da natureza
humana. Enquanto o mundo produz gente que manda e gente que obedece, pessoas
fortes e pessoas fracas, certas de que são dependentes de outras que são
independentes, o hipnotismo será um agente da felicidade humana. Ciência que
encerrou o último século, o meu mais ardente desejo é que, no momento mesmo do
despertar do interesse que lhe dedica ao público, se forme um juízo melhor dos
seus benefícios e do bom uso que se fizer deste poder, assim como do
conhecimento da sua influência benéfica só poderá advir proveito para a raça
humana.
Fim
desta obra – Estas séries de lições completas tem por fim dar ao discípulo a
faculdade não só de hipnotizar com bons resultados, senão também de lhe fazer
compreender alguma coisa das grandes leis que regem essa força. Examinando uma
grande parte das obras que têm sido publicadas sobre hipnotismo e sobre as
ciências que dele decorrem, pareceu-me que os autores destas obras se
preocuparam menos das grandes vantagens que se poderiam tirar delas, do que da
facilidade notável com a qual, em certos casos, eles determinam estados de
hipnotismo profundo. Em realidade, não há nenhum mistério na produção da
hipnose, mas os efeitos e resultados do hipnotismo permanecerão sempre
prodigiosos e cada vez maiores.
Perfeição
deste método – O meu maior desejo é fazer-vos ver, nestas lições, quais os
resultados que os velhos práticos tiraram desta ciência e até que ponto tereis
ração de imita-los, tendo, não obstante, sobre eles, a vantagem da grande luz
lançada pela psicologia moderna sobre fenômenos que até o presente eram
inexplicáveis. Não é necessário determo-nos a discutir a história do
hipnotismo, porque dela se tem tratado em todos os livros que se tem ocupado
desta ciência. Lendo tais livros, o discípulo pode tirar proveito de tudo
quanto crê e julga útil conhecer relativamente ao bom êxito prematuro daqueles
que descobriram, dando-lhe o nome de
Mesmerismo, para batiza-lo de novo, um pouco mais tarde, com o nome de
Hipnotismo.
Cada
um pode aprender a empregar a força – Não há ninguém que, possuindo uma
inteligência comum e compreendendo a significação de uma linguagem escrita, não
possa aprender, por este método de instrução, tudo quanto lhe poderia ser
ensinado no país por toda e qualquer escola de Terapêutica Sugestiva. Tudo será
exposto de modo claro e prático. Suponho que não conheça nada de Sugestão, de
Hipnotismo, Mesmerismo, da Clarividência, e espero, assim, fornecer a você
passar cientemente pelas manifestações mais complicadas. Os nossos
investigadores modernos tem se preocupado demasiadamente com o que eles chamam
de sugestão e terapêutica sugestiva, e a minha opinião é que eles não se
compenetraram da importância do sono profundo que caracteriza o verdadeiro
hipnotismo.
Importância
do hipnotismo profundo – Nesta série de lições, esforcei-me, para fazer você se
compenetrar da importância da ação de passar os pacientes pelos graus de
hipnotismo mais profundos e em vosso poder e será, assim, levado a ter sempre
em consideração uma produção de sono mais profundo. Nas obras dos primitivos
mesmeristas, achamos muitos exemplos de clarividências atribuídos aos seus
sonâmbulos, aos quais deparamos hoje pouquíssimos casos que lhes possam ser
comparáveis. A isso imputo eu, agora, o contentamento facílimo que os nossos
operados experimentam com os estados de hipnose mais ligeiros. A sua falta de
perseverança em fazerem passar os pacientes por estados mais profundos de
hipnose, pode ser atribuída à mesma razão. A outra causa atribuem os bons
resultados dos mais antigos mesmeristas. Eram, invariavelmente, homens de
grande elevação oral. Ressumbrava deles uma influência benéfica que os
pacientes apreciavam e recebiam com facilidade. Num ápice, eram capazes de
fazer passar para a passividade absoluta aqueles de que estavam tratando. A
pureza das suas vistas, sua intenção benevolente liam-se nos rostos e eles
obtinham um resultado imediato sobre as mentes perturbadoras e sobre os nervos
sensíveis daqueles em quem exerciam a sua arte.
Importância
do motivo elevado nas investigações psicológicas – Quanto mais nobre é o fim
almejado, tanto mais bem sucedido é o operador.
Muitos
se tem ocupado do hipnotismo, mas ninguém chegou a um bom êxito seguro, se não
trouxe, ao estudo desta ciência, coração puro e mãos limpas. Por conseguinte,
posso afirmar que, se o seu fim não é outro senão o de satisfazer sua
curiosidade, aprendeu o hipnotismo, não poderás jamais esperar receber a
recompensa, que não é concedida senão aqueles que aspiram o mais ardente
possível a uma luz maior por intermédio da psicologia.
Método
de sugestão verbal – Para a nossa segunda lição, vamos tomar o método mais
geralmente empregado pelos hipnotizadores modernos e que foi primeiramente
divulgado pelo DR. Liébeault, da Escola de Nancy, França. Batizou ele seu método
com o nome de “sugestão verbal”, e as suas vistas, opiniões e experiências
foram personificadas mais tarde pelo Dr. Bernheim, seu discípulo, numa obra
intitulada: Terapêutica Sugestiva.
Tomemos
por um momento o lugar do Dr. Liébeault e suponhamos que um doente vem
procura-lo para se tratar pelo hipnotismo de uma moléstia nervosa qualquer. O
doutor pega na mão do paciente, faz-lhe algumas perguntas e, como este lhe
afirma que sofre muito de dores de cabeça, ele lhe pede que se assente
confortavelmente em uma poltrona.
Maneira
de proceder de Liébeault – O doutor põe-se a frente do doente, colocando
levemente a mão esquerda sobre sua cabeça e mantendo os dois dedos da mão
direita cerca de trinta centímetros dos olhos do paciente, de modo que forme
com estes um ângulo bastante elevado; desta maneira o paciente é obrigado a
erguer um pouco os olhos para ver claramente os dedos, o que ocasiona nele,
assim, a produção de um certo esforço. Então diz o doutor com voz calma e em
tom monótono: “Não há nada que temer neste processo. Está prestes a passar,
conforme o meu e o seu desejo, pela mesma transfiguração mental por que passais
em cada noite de sua existência, isto é, passará primeiramente de uma condição
de vida ativa e desperta, para um estado de entorpecimento, estado no qual
ouvis, mas não dá atenção ao que se está dizendo e no qual se senti pouco
disposto a fazer qualquer movimento voluntário; passará desta condição para o
sono ordinário, no qual não terá consciência do que se passa em seu redor, como
acontece em cada noite de sua vida. Despertar-vos-ei deste estado quando me
aprouver, grandemente aliviado e fortificado, e notará o desaparecimento da
dor”. Enquanto está falando, o doutor move com os dedos, dando-lhes um
movimento de rotação de cerca de trinta centímetros de diâmetro em redor e um
pouco por baixo dos olhos do paciente. Ele continua com esse movimento circular
dos dedos, pedindo ao doente que mantenha os olhos e atenção fixos durante todo
esse tempo em tom muito monótono.
O
Objetivo deste método – A idéia é acalmar os nervos do paciente; livra-lo de
toda ansiedade do espírito que se relacione com o mistério do tratamento que
ele vai sofrer, tranqüiliza-lo e pô-lo à vontade. A intenção é também faze-lo
passar para um estado de fadiga alegre, insinuada no cérebro do doente pela
simples ação do movimento dos dedos ao qual se segue a concentração da mente
sobre todo e qualquer trabalho que não acarrete aborrecimento nem excitação. O
entorpecimento apodera-se do paciente. A

voz do operador ressoa
calma e mais monotonia de que antes.
Sugestão
para o sono – O doutor diz: “Os seus olhos estão pesados; sente que o
entorpecimento vem vindo; nenhum ruído do exterior vem te incomodar; o sangue
se retira das extremidades; suas mãos, pés e cabeça vão se refrescando; o seu
coração vai batendo mais lentamente, você respira mais fácil, tranqüila e
profundamente, e cai, devagar, num sono normal e saudável”. O doutor para por
alguns instantes e diz mais tranqüilamente: “Feche os olhos, dorme”, pondo, no
mesmo instante e levemente, as mãos sobre as pálpebras do doente. Diga, então:
“Repouse com tranqüilidade, todo vai muito bem; a sua dor está se aliviando
gradualmente. Dormirá muito bem dentro de alguns momentos e, quando acordar, já
não sentirá mais a dor. Dormi tranqüilamente. Nada vai te incomodar”. Deixa o
paciente por dez ou quinze minutos e, ao voltar, verifica que este último caiu
do estado de entorpecimento numa condição de sono ligeiro e que a enxaqueca
desapareceu inteiramente ou, pelo menos, diminuiu bastante. O doutor faz saber
ao doente que, no dia seguinte, quando voltar para o tratamento, ele passará
ainda com mais facilidade para o estado de entorpecimento e que o seu sono será
mais profundo. Além disso, depois de alguns tratamentos, ele se habilitará não
somente a curar toda e qualquer dor que poderá agito-lo em dado momento, mas
ainda que a sugestão verbal impedirá a renovação do incômodo. Este método é o
que é invariavelmente seguido na França para o trabalho com um novo doente. Não
se fala da influência hipnótica; não existe nenhum ensaio que permita
identificar se o paciente está debaixo de influência ou não; tudo é combinado
para tranqüiliza-lo, sossega-lo e por-lhe o espírito em estado de repouso
completo.
Segundo
Tratamento – Por conseguinte, quando o doente volta para tratar-se, senta-se na
cadeira, confiado e absolutamente certo do resultado que se vai seguir; obedece
em proporção, cada vez mais rápida, às sugestão do doutor e é mais
profundamente afetado. Na segunda sessão e depois que provocou, de maneira cima
aludida, a condição de entorpecimento no doente, o doutor diz: “Está percebendo
que seus olhos estão pesados e não consegue abri-los”. Pondo levemente os dedos
sobre as pálpebras do doente, ele diz: “Os seus olhos estão fechando e não pode
abri-los”. O doente tentará, em vão, abrir os olhos e talvez, sorrindo
levemente, renunciará a isso e recairá num estado de sonolência. O doutor diz:
“Tudo está correndo perfeitamente; os seus olhos estão fortemente fechados e
não tem forças para abri-los. Vai cair, agora, num estado de sono mais
profundo. Ao acordar, já não vai lembrar de nada. A sua memória desaparecerá
por momentos. Terá somente consciência do fato de ter dormido profundamente e
do grande benefício que ele dará a sua saúde”. O doente fica sozinho, como
anteriormente, durante um quarto de hora e, quando este tempo tiver acabado, o
doutor volta para o quarto e, passando a mão, delicadamente, pela fronte do
doente, diz:
Conclusão
do segundo Tratamento – “Descansou bem e o sono te reconfortou. Já não terá
mais dor de cabeça, e as suas faculdades mentais ficarão mais brilhantes e
vivas. Acordará quando eu contar três e, daí por diante, quando eu tiver a
intenção de te hipnotizar em seu benefício; cairá imediatamente num estado de
sono profundo. Quero agora, desperte tranqüilamente e sem abalo nervoso; um,
dois, três... acorde completamente”. Logo que o doutor pronunciar “Três”, o
paciente abre os olhos e confessa que não sente dor, nem aborrecimento de
qualquer natureza.
A
memória está sujeita à sugestão – Talvez ele olhe ao redor de si e de maneira
um pouco boba, como que acorda repentinamente de um sono profundo, mas não se
recorda de que alguém lhe falasse desde quando fechou os olhos até aquele
momento. Esse doente apresenta, por conseguinte, todas as condições necessárias
para se provocar nele um estado de hipnose profunda e vamos nos contentar, por
agora, em deixar de lado o método da escola de Nancy.
A arte de aplicar o Mesmerismo –
Tomemos em consideração o método dos antigos magnetizadores, como eles se
apelidam, e demos a estas instruções uma forma pessoal, como se elas fossem de
mim para você. Comece por escolher como paciente, para a experiência, alguém
que seja mais moço do que você, com que não tenha convivido por muito tempo,
para não ter muito familiaridade com você.
O
operador que tem autoridade – A fim de obter algum resultado bom, cabe a você,
em primeiro lugar, deparar alguém que se sinta intimidado por você, porque o
ponto essencial para ser bem sucedido no mesmerismo está na qualidade de
obediência apresentada pelo paciente. Se este não se sente bem fisicamente e
considera o Mesmerismo como um meio possível de alívio à sua saúde, isto
concorrerá para aumentar a sua probabilidade de bom êxito.
Método
para aplicar o Mesmerismo – Faça sentar o paciente numa poltrona e se sente bem
em sua frente; deixe que o nível dos olhos dele estejam um pouco acima dos
seus; arrume uma maneira de que ele fique à vontade e, se for necessário,
coloque algumas almofadas por detrás das suas costas de modo que sua cabeça
descanse facilmente e sem nenhum esforço físico, seja qual for, na posição em
que ele estiver sentado.
Pegue
a mão direita dele na sua mão esquerda e a mão esquerda dele na sua mão
direita. Incline-se para frente de forma que sua cabeça chegue cerca de trinta
centímetros da dele. Peça que olhe fixamente em seus olhos. Faça-o notar bem
que não pode desviar o olhar. Não deve pestanejar, a não ser que se sinta
obrigado à faze-lo. Fale da seguinte maneira: “A sua primeira sensação será um
formigamento nas suas mãos e que se estenderá para seus braços, daí aos ombros
e, enfim, um entorpecimento que se insinuará, pouco a pouco, por todo o seu
corpo. Não sente nenhum mal estar e afaste de você toda disposição que te leve
a querer saber toda e qualquer coisa que se apresentar. Nenhum prejuízo lhe
causará e poderá depositar em mim toda a sua confiança. Quando não puder manter
os seus olhos abertos e fixos nos meus, feche-os e eles não se abrirão mais.
Passará, então, para um sono profundo, o seu corpo ficará inteiramente quente e
sentirá uma corrente natural que lhe parecerá elétrica. Quando os seus olhos
estiverem fechados, empregarei sobre você passes, cujo efeito será duplicar a
influência magnética e distribuí-la igualmente por todo o seu corpo”. Como tem
as mãos dele nas suas apertai ligeiramente os polegares, diminuindo ou
aumentando alternativamente a pressão e pondo os seus polegares entre a segunda
e terceira juntura das suas mãos. Esta pressão exercerá uma influência especial
sobre ele e atrairá grandemente a sua atenção para a obra em mão. Quando ele já
não puder conservar os olhos abertos, solte uma das mãos e feche os olhos,
dizendo: “Repouse e dormi”. Pode, então, proceder

ao emprego dos passes.
Emprego
dos passes longos – Ao se levantar, erga ambas as suas mãos acima da cabeça e,
tendo a extremidade de seus dedos a cerca de cinco centímetros do seu rosto,
faça descer ao longo de seu corpo, levando-as a fazer uma longa curva que
terminará nos joelhos. Lance, então, as suas mãos de cada um dos seus lados,
com as palmas para o ar e deixai-as reunir-se ainda acima de sua cabeça;
deixai-as tornar a cair seguindo outra curva, lentamente executada desde a
cabeça até os joelhos. Repita o mesmo processo durante cerca de dez minutos e,
ao fim deste tempo, se tocais um dos seus braços, ele permanecerá provavelmente
na posição em que o colocardes. No caso em que ele recaia a seus lados, repita
esses passes longos e lentos durante ainda cinco minutos e, decorrido esse tempo,
ele estará, sem dúvida, no estado conhecido como “relação”, isto é, estará mais
ou menos debaixo da influência magnética. Não tente levantar de novo a sua mão,
porque pode acontecer que ele seja da espécie dos pacientes letárgicos que
nunca se tornam catalépticos. Como a significação destes termos será dada mais
tarde, sendo plenamente explicados, não é necessário insistir nisso
demasiadamente. Diga-lhe tranqüilamente: “Está prestes a passar para debaixo da
condição magnética e, ainda que poça ter consciência do lugar onde está, não
poderá abrir os olhos”. Espere um pouco e diga, então: “Não pode abrir os
olhos, ainda que tente abri-los”. Pare ainda e diga: “Procura abri-los, não se
abrirão”. Se ver que ele se esforça inutilmente para abrir os olhos, pode
concluir daí que o seu paciente está na mesma condição mental

que aquela em que se
achava o paciente do Dr. Liébeault, mencionado na
lição anterior.
Como
conhecer o sono Magnético – Mas, no caso em que nota que ele não faz nenhum
movimento e em que parece não prestar nenhuma atenção à exortação que lhe fez
de levantar as pálpebras, pode estar perfeitamente certo de que provocou nele
um estado de sono magnético mais profundo, estado que é preferível não
perturbar, diga-lhe, neste sentido: “Dormi profundamente e sonha que está
prestes a viajar a milhares de quilômetros daqui, visitando lugares que nunca
visitou. Deixa que seu espírito vá onde quiser e quando acordar, dentro de uma
hora, vai me dizer o que viu e onde esteve, cada coisa ter-vos-á claramente
penetrado no espírito, ao acordar. Dormi durante uma hora e, nesse tempo,
acorde por sua própria conta”. Deixamos, também, neste ponto, o doente.
Método
empregado na Índia – Exponho, na quarta lição, o método empregado por um médico
inglês, o Dr. Esdaile. No ano de 1847, fez ele um emprego tão bom do
hipnotismo, no Hospital de Calcutá, na Índia, que o governo inglês lhe pós à
disposição do hospital especialmente organizado para receber os doentes que
deveriam ser operados pela Anestesia Mesmérica. É um método praticamente
desconhecido hoje e que nunca foi francamente exposto ao público. Os seus
resultados são entretanto, tão prodigiosos, especialmente para introduzirem os
mais profundos graus de hipnose, que essa apostila completa lhe deve reservar
um lugar importante. Agora, retomemos de novo a posição de instrutor e de
discípulo.

O que se deve fazer para induzir o sono
por estes meios – É necessário ter-se no aposento onde os doentes são tratados,
um longo sofá muito baixo, cuja cabeceira não deve ter a altura mais de quinze
centímetros que o centro. Estenda o doente sobre o sofá e sente ao lado da
cabeça. Incline-se de modo que, quando os olhos do doente se encontrarem com os
seus será fácil manter os olhares fixos. Para tornar a explicação mais clara,
preciso dizer que, neste caso, é necessário que a vista do doente não seja
tensa. Incline-se, agora, sobre o sofá, de maneira que o seu rosto não fique a
mais de dez ou doze centímetros do rosto do doente. Fixe seus olhos nos dele. Ordene-lhe
que fixe seus olhos nos seus. Não pronuncie palavra alguma. Faça com que nenhum
ruído venha perturba-lo. Conserve esta posição, se for necessário, por uma ou
duas horas e assentai bem no seu espírito que o doente deve dormir. Dentro de
meia hora ou menos ainda, as pálpebras hão de tremer, mas uma palavra vossa
bastará para reconduzi-lo a atenção e ele fará outro esforço para conservar os
olhos abertos. Os seus esforços tornar-se-ão cada vez menos pronunciados, até
que a lassidão se apodere dele a tal ponto, que não poderá resistir a
influência do sono, e os seus olhos se fecharão por completo.
Neste
caso, não faça experiências – Quando houver ensaiado este método, será inútil
tentar uma experiência qualquer com o paciente, na intenção de verificar se ele
passou ou não para a condição hipnótica. Contanto que o doente não te engane a
seu bel-prazer, este método produz invariavelmente as mais profundas fases da
hipnose e aqui uma experiência é absolutamente inútil.O seu doente está de novo
na condição a que se denomina sono magnético.
Lição V
Método
para hipnotizar diversas pessoas – Firme bem em seu espírito os três métodos
que foram ensinados acima, como te aconselhei. Reúna em uma sala oito ou dez
pessoas e mande a cada uma que fixe seus olhos num objeto brilhante qualquer,
por exemplo, uma moeda de prata que manterão na palma da mão. Proíba todo
gracejo dos assistentes, fazendo-os notar que você deseja efetuar uma
experiência séria sobre os fenômenos psíquicos e explique que toda tendência à
distração terá por efeito retardar os resultados, distraindo a atenção dos que
tomam parte na pesquisa.
Explicações
preliminares – Explique, que não quer fazer nenhuma sugestão verbal durante a
seção, porém que eles sentirão os seus olhos fecharem-se gradualmente; o objeto
brilhante vai tornar-se indistinto e vago a sua vista e eles experimentarão uma
sensação geral de torpor e de adormecimento. Deixe, agora, o seu auditório
entregar-se seriamente a simples tarefa que lhe assinalastes. Colocai-vos diante
do vosso círculo de pessoas e observe atentamente.
Maneira
de conhecer os sintomas – Verá, pouco a pouco, uma cabeça adormecer; depois,
sem dúvida outra; alguns daqueles que tiverem mais excitados deixarão a sua
atenção desgarrar-se na direção daquelas nos quais a influência se manifesta
mais pronunciadamente. Tens que estar pronto para reprimir todo cochicho ou
sinal de comunicação entre os membros do círculo, porque todos os ruídos e
gestos tendem a perturbar os bons pacientes.
Quando
notar, entre os assistentes, que dois ou mais deles estão influenciados, vá
mansamente para o meio deles e fale com brandura para os não fazer sair do
devaneio em que caíram; grave no espírito deles a idéia do sono; dizendo o
seguinte: “Fixando seus olhos sobre o objeto brilhante que tens na mão,
restringes a circulação do sangue no cérebro e, em conseqüência disto, vão se
sentir entorpecidos e prestes a dormir. Este entorpecimento aumentará e se
aprofundará enquanto continuar a fixar o objeto que segura. Quando o sangue
deixa o cérebro, vai se seguir o sono. A sua atenção fixa sobre o objeto que
segura, produziu a mudança desejada na circulação do sangue e agora você vai
gradualmente adormecendo. Não venha nada a te perturbar”.
Método
para despertar os participantes – Alguns daqueles que se influenciaram dormirão
profundamente e, num espaço de quase 5 minutos pode acordar todos os
assistentes dizendo: “Quando eu contar três vão sair todos dos seu torpor e vão
me dizer como e até que grau fostes influenciado”. Logo que contar três, todos
eles abrirão os olhos e darão conta de suas experiências.
Conclusões
tiradas de seu testemunho – Alguns deles vão dizer que não sentirão barulho no
ouvido, outros dirão que sentirão entorpecimentos, outros mais hão de declarar
que dormiram profundamente. Os primeiros cometeram a falta de deixar divagar a
sua atenção; os segundos sentirão a influência e, por tentativas reinteiradas,
acabariam provavelmente por dormir. Pode-se , pois, dizer que, induzida por
eles próprios desta vez, alcançaram a mesma condição que aquela que se produziu
pelos pacientes nas lições anteriores, e tem-se empregado meios absolutamente
diferentes para determinar esta condição de submissão.

Lição VI
As qualidades de um bom operador –
Indique a você, nas lições anteriores, os quatro modos diversos de induzir a
hipnose que formam a base de uma variedade de métodos que constituem uma série,
e entre os quais cada operador elege o que melhor lhe convém para adotá0lo com
bom êxito. Antes de estudarmos os outros métodos, consideremos os requisitos
necessários para se tornar um bom operador.
A
questão do sexo não tem importância – Ainda que nestas lições falemos do
operador e do paciente (considerando sempre ambos como do sexo masculino), as
mulheres se tornam também ótimas hipnotizadoras e são influenciadas tão
facilmente quanto os homens e sem apresentar no entanto, mais facilidade, se
tornam bons pacientes. A minha experiência tem-me provado que a
susceptibilidade do homem e da mulher para a influência é quase a mesma, e não
se pode dizer, nessa circunstância que um sexo tem mais vantagens que o outro.
Um bom
operador deve te uma ótima aparência pessoal e há de deixar de parte dos
hábitos e modos grosseiros. Importa apenas ser polido e persuasivo, tendo a sua
voz e seu todo, ao mesmo tempo, a aparência de quem comanda.
O que
é o Hipnotismo? – A ação de hipnotizar é verdadeiramente a arte de produzir uma
impressão sobre a mente de outro e, a fim de tornar esta impressão profunda e
durável, não deve o operador aceitar ou consentir nenhuma familiaridade com os
doentes ou pacientes. Regra é esta que não consente exceção.
O
poder de hipnotizar pode ser capitulado como sendo o poder de impor o respeito
e a obediência, Por esta razão e porque a sua autoridade como médico lhe dá o
direito de mandar, o doutor torna-se um admirável hipnotizador.
Mas
aquela firmeza de maneiras e de aparência dominadora que são indispensáveis
para o paciente, podem ser adquiridas por todos aqueles que estudam estas
lições, com um pouco de prática.
Importância
do seu procedimento – As maneiras que são tomadas em primeiro lugar, mais tarde
tornam-se naturais e se, desde logo, não tendes confiança em si mesmo, é
necessário que adote um modo de agir e maneiras certas, quando tratar de um
paciente. Ficará surpreendido de ver com as coisas que tem de acontecer,
acontecem.
Por
exemplo, quando dizer a um paciente que ele começa a entorpecer-se, ainda que
não veja nele nenhum sinal de torpor, sucederá bem depressa que ele apresentará
todos os sintomas de entorpecimento, e este fenômeno significa muito
simplesmente que a sua confiança absoluta produziu uma tal impressão sobre sua
mente, que a coisa que supunha ser real se tornou verdadeira.
Como
já disse, o efeito de suas palavras te espantará primeiro, mas, depois de um
pouco de prática, começará a ver que todos os seus conhecimentos são
influenciados pelas sugestões que lhe são feitas por outro, direta ou
indiretamente. As outras qualidades indispensáveis a um bom operador são: a honestidade,
um caráter integro, agindo lealmente com todos, um olhar franco e, o mais
importante de tudo, o hábito de encarar de frente cada pessoa, enquanto trata
de influenciá-la.
Método
para desenvolver um olhar poderoso – Para desenvolver o poder do olhar fixo e
para prática especial dos operadores, aconselho que façam 10 minutos de manhã e
10 há noite para, no seu quarto, estudar, diante de um espelho a maneira de
fixar a sua imagem sem piscar.
Depois
de uma prática regular deste estudo, sucederá que eles serão capazes de olhar
uma pessoa sem piscar durante um período de uma a cinco e, algumas vezes, de
dez a vinte minutos, sem que os olhos se cansem ou se encham d’água. Este
estudo terá também por efeito engrandecer os olhos aumentando o afastamento das
pálpebras, resultado desejado.
Lição VII
Quais
são os melhores pacientes? – A respeito da espécie de melhores individuas de
que se fazem os melhores pacientes, os meus discípulos tem-me, muitas vezes,
pedido de que lhes indicassem alguns meios para escolherem, numa multidão de
pessoas, as mais capazes de passarem, num relancear de olhos, para uma condição
de sonambulismo. Só a prática te torna perito no assunto, mas a certos
requisitos gerais que nunca enganam o discípulo; são os seguintes: as pessoas
loiras caem sob a influência com muito mais facilidade do quês as morenas. Os
homens e as mulheres de aparência desenxabida, olhos azuis tirantes a pardos,
cabelos ligeiramente castanhos, mas sem reflexos dourados, boca que deixa
transparecer um caráter amável e algo curioso, formam uma classe de pacientes
notáveis.
Exceção
a regra – Infelizmente, sobre este ponto, não se pode aceitar a generalidade
como exata, porque, na prática de cada um, se apresentam casos excepcionais em
que as pessoas de vontade forte fazem admiráveis pacientes. Eles tem provado
quês as de um trigueirinho muito pronunciado são certamente sonâmbulos de
primeira qualidade e que os tipos insípidos se mostram refratários e difíceis
de influência.
Ficará
conhecendo todas as probabilidades de bom êxito que terá com o paciente, se
puder julgar do efeito que causais nele no momento de induzir a hipnose e pelo
efeito que nele produzirão as suas maneiras e aparência, enquanto está
acordado. Se mostra cordial, complacente e obediente; se entrega-se ou deixa
ver, nos seus modos, que ele te teme muito, mas sem repugnância, podeis estar
certo de produzir uma grande impressão sobre seu espírito. Há pessoas que
resistem de tal modo a hipnose, que é impossível vence-las e perderá o seu
tempo a trabalhar com tais pacientes. Creio que elas não se conduzem assim pela
influência do medo, mas sim pelo aborrecimento que lhes causa o conjunto do
processo. Se um paciente te teme, isso nada significa, porque, em dois ou três
tratamentos pode fazer desaparecer este sentimento de temor, e então o mede que
lê tinha sede o lugar para a confiança mais absoluta. Mostre também, mais
tarde, que o sentimento de temor é, as vezes, suficiente para produzir a
hipnose instantânea.
O que
constitui um paciente resistente – Os piores pacientes são os de vontade fraca,
que não se interessam pela psicologia e que não possuem sagacidade suficiente
para compreender a força real que neles reside. Podem, entretanto, ser
atingidos pela sugestão indireta, e se tratais com semelhantes pessoas, não os
fieis somente na sugestão verbal, mas chamai em seu auxilio a eletricidade; com
ela poderá impressionar profundamente o espírito.
Lição VIII
Exemplo
característico – Para nos instruir, vamos, agora, apresentar o caso seguinte:
Vem um amigo ao seu consultório e trás consigo um rapazinho. Diz ele: “Ouvi
falar que é um célebre hipnotizador e muito desejo que dê uma prova de seu
poder sobre este rapaz. Não se opõe que você o hipnotize e fará tudo que disser.
É um rapaz atrasadíssimo nos estudos e não quer se aplicar ao trabalho. Foi a
mãe dele que me enviou para eu corrigi-lo, mas tendo ouvido falar de seus bons
resultados nestes casos, Faça com que sinta sobre ele o poder do hipnotismo e
seja corrigido do vício da preguiça. Veja o que pode fazer”.
Eis
aqui um exemplo característico que se apresenta na carreira de cada operador e
o verdadeiro método a empregar pode ser dado aqui com minúcias, afim de que o
estudante saiba como proceder em casos semelhantes.
Como
começar a influenciar uma criança – Aprossime-se do rapaz, confiada e
firmemente. Pegue a mão esquerda dele em sua mão direita, colocando-o, ao mesmo
tempo, a vossa mão esquerda sobre sua fronte e fazendo inclinar a cabeça para
trás até levante os olhos para você. Ele há de ficar um pouco amedontrado com
este processo. Diga que não tem a intenção de lhe fazer mal e que muito se
divertirá durante as experiência que acontecerão. Declare que não só não lhe
fará mal, como também não deixará que ninguém o faça; e pode depositar toda
confiança em você. Fale em tom tranqüilizador, fazendo, ao mesmo tempo, fixar
os olhos nos seus enquanto está em pé. Diga que deve praticar tudo que ordenar
e que vai adormecê-lo. Declare que vai por ele sobre uma cadeira e que lhe dará
para fixar os olhos uma moeda de prata; um objeto brilhante preencherá o mesmo
fim. Afirme, em seguida, que não acontecerá nada de extraordinário, senão que
seu sono será absolutamente natural. Depois, ponha-o confortavelmente em uma
cadeira, pondo na sua mão o objeto brilhante e colocai-o a dez centímetros dos
seus olhos, dizendo que, depois de o ter fixado por pouco tempo se entorpecerá
cada vez mais e, finalmente, será obrigado a fechar os olhos e

dormir.
O que
se deve dizer – Repita positivamente e de maneira muito enfática as indicações:
“Fixe os olhos sobre o objeto que tens em sua mão. Não de atenção a qualquer um
que venha ao aposento ou ao ruído que o faz. As sua pálpebras vão tornar-se
cada vez mais pesadas; entorpecerá de tal maneira que ficará incapaz de tê-las
abertas”. Passe para trás de sua cabeça e ponha vossa mão direita sobre sua
nuca, conservando a palma da mão fortemente apoiada aí, mas arranjaivos de
maneira que não os causeis nenhum mal. Como nada se ganha com a preça, deixe-o
adormecer por alguns instantes. Repita, então, a sugestão seguinte: “Os seus
olhos vão tornando-se cada vez mais pesados, está entorpecendo bastante; dentro
de alguns instantes será impossível conservar os olhos abertos, mas não os
feche antes que eu ordene. O objeto quase que já não aparece agora, mas
continue a fixa-lo e eu vou dizer quando deverá fechar os olhos”.
O
objeto deste método. -Continuai a falar.lhe desta maneira com segurança, porém
com suavidade; fazei as vossas sugestões em tom de voz tal que se imprimam na
sua consciência como fatos. Penetrai.o, agora, com a idéia do sono. Continuai
a falar.lhe, mas não ouça ele senão o que lhe dizeis. Em seguida às vossas
sugestões reiterada. Os seus olhos terão logo um aspecto dormente e pesado. Falai.lhe,
então: "Os vos 108 olhos estão prestes a fechar-se, mal podeis manter-vos
dêsperto". Falai.lhe, aqui, em tom menos imperativo e mais monótono,
empregando a entoação mais lenta que podeis e fazei de sorte que pareçais
cansado e disposto a dormir. Continuai pelo modo seguinte: "Os vossos
olhos devem fecharse agora, não podeis tê-los abertos; hão de cerrar-se já e
estareis adormecido. Fechai°s.Conservai a vossa mão direita sobre a sua nuca
como anteriormente e ponde a vossa mão esquerda sobre a sua fronte, dizendo:
"Dormi". Dai-lhe esta ordem com brandura, mas com firmeza. As
pálpebras tremerão, às vezes durante alguns segundos, outras vezes por mais
tempo. O paciente afrouxará logo os seus músculos e tornará a assentar-se sobre
a sua cadeira com um suspiro de satisfação. Deixai-o, assim, repousar durante
alguns segundos, sem lhe dirigirdes a palavra.

Guardai silêncio no aposento. -Pedi à pessoa que o acompanhou ao Vosso
consultório que fique muito tranqüila durante toda a sessão, que não faça o menor
barulho que possa atrair a atenção do paciente e não ofereça nenhuma sugestão
nem a ele nem a vós. Deve-se insistir sobre este ponto antes de começar o
tratamento.
O efeito sobre a ação muscular do rapaz.
-Depois de haver permitido ao paciente que tome alguns segundos de descanso,
dizei-lhe em tom muito baixo: "Estais dormindo profundamente e nada vos
acordará. Nada VOI fará mal; podeis abrir os olhos quando eu vá-lo disser, mas
Dão o podeis se para isso eu Dão voa der ordem. Ficareis adormecido.Vou, agora,
levantar-voa o braço e esse movimento Dão voa perturbará, nada voa
despertará". Retirai suavemente a vossa mão da sua nuca e friccionai duas
ou três vezes o braço mais perto de vós, depois levantai-o vivamente a uma
posição horizontal e dizei: "O Vosso braço ficará Da posição em que eu o
puser". Friccionai-o ainda duas ou três vezes e dizei: "Vêde que o
Vosso braço está rígido e Dão podeis abaixá-lo. Ele ficará na posição em que eu
o deixar; estais profundamente adormecido e fareis tudo o que eu vos ordenar
que façais, mas não podereis acordar, senão quando eu vo-lo ordenar". O
braço ficará na posição em que o tiverdes colocado e então podereis dizer:
"Ninguém poderá fazer-vos dobrar o braço, tem que eu o consinte".
A primeira fase da catalepsia ou rigidez
muscular. -Podeis, então, agir no outro braço e é bom meio tornar assim, os
braços e as pernas rígidas, contanto que o paciente seja jovem ou rapas bem
sadio, e a experiência muscular não tenha nele um efeito excitante.
Maneira de fazer desaparecer a rigidez. -Quando
todos os seus membros estiverem estendidos horizontalmente, podeis dizer.lhe:
"Vou agora fazer desaparecer, pouco a pouco, essa influência e
afrouxar-voa o braço esquerdo, correndo nele alguns passes, desde o punho até o
ombro". Fazei-o e dizei, em seguida: "Está frouxo agora e podeis
abaixá-lo". Procedi da mesma forma com o outro braço e, nessa experiência,
tende a precaução de apagar completamente no espírito do doente toda a
impressão de rigidez muscular que pudestes fazer penetrar nele durante o correr
da experiência. Repeti. -lhe: "Podeis dormir profundamente e fareis tudo o
que vos ordenar que façais. Só eu é que posso despertar.voa".
O efeito das vossas sugestões. -Tendes agora
demonstrado, no exemplo deste paciente, o poder que exerceis sobre o seu
sistema muscular. Pela repetição das vossas sugestões, inculcastes-lhe no
espírito que ele não podia realizar certas coisas que podia efetuar no estado
normal, como, por exemplo, abaixar o braço. Daí resulta que, pela repetição da sugestão,
chegou a crer que o que dizeis é uma coisa real e se acha as assim, até certo
ponto, em contradição consigo mesmo. Parecerá fazer esforços desesperados para
abaixar o braço, coisa que acontece freqüentemente aos pacientes; mas, pelo
fato mesmo de julgar a coisa impossível, ele é incapaz de fazê-la. Deveis
começar, agora, a compreender o poder da sugestão positiva, quando se faz
penetrar no espírito, no momento em que as faculdades intelectuais não estão
ativas.
A razão está afetada. -Quando a criança está
dormindo, ela não raciocina como faria no estado de vigília. Por isso é que ela
aceita o fato real de que não pode abaixar os braços e abandona essa idéia. O
seu cérebro está, então, no estado de receber novas sugestões e, em todas as
experiências que se apresentarem, podeis demonstrar sobejamente o poder
muscular sobre o paciente.
Outras evidências do estado receptivo do seu
espírito. Por exemplo, e precisamente pela mesma forma que lhe provastes, a
seu hei-prazer ou a contragosto, que ele não podia abaixar os braços senão
quando lho ordenásseis, podereis provar-lhe bem como às pessoas presentes, que
lhe é impossível abrir os olhos, se o vedais; que não pode fechar a boca, se
lha abria e lhe ordenais que a deixe aberta; que ele não pode arredar-se de
nenhum sitio, se lhe dissestes que ai fique e que é incapaz de fazer um
movimento.
Método para adormecer, conservando-se de pé.
-Fazei.o de novo manter-se de frente e dizei, passando-lhe rapidamente aa mãos
da cabeça aos pés, tocando-lhe levemente as vestes e repetindo diversas vezes
este duplo movimento: "Podeis dormir tão confortavelmente em pé, como se
estivésseis assentado numa cadeira. Abrireis os olhos quando eu vo-lo disser e
vereis O que eu voa ordenar que vejais. Sentireis também o que eu VOl disser
que sintais; tudo será a realidade para vós".

Dizei, agora: "Ainda que eu vos mande
abrir os olhos, não ficareis completamente acordado; estareis dormindo ainda,
vereis coisas curiosíssimas, mas não vos meterão medo nem ficareis admirado do
modo como elas se produzem; sabeis somente que as vedes e que para vós são a
realidade".

Maneira de induzir sugestões rápidas e positivas. -Nesta experiência, é
necessário que faleis vivamente e sem hesitação. A idéia de imprimir no
espírito do paciente que o que estais dizendo é a realidade. Se hesitais ou se
falais com um tom in. certo, correis o risco de que o paciente se desperte
suficientemente para questionar convosco ou vos imprimir as suas dúvidas. O
Vosso dever é simplesmente impressiona-lo bem.
Uma experiência de ilusão do sentido do vista.
-Tomai, agora, urna bengala ordinária e dai.a à criança, dizendo-lhe: "Não
tendes medo das cobras. Podeis até desejar possuir urna cobra como brinquedo.
Abri os olhos e vede a cobra que acabo de pôr nas vossas mãos. Não vos picará,
não vos atemorizará nem vos fará mal algum. Segurai-a bem para que não se
escape". O rapaz abre os olhos e no lugar da bengala vê urna serpente, mas
como lhe inculcastes a idéia de não se atemorizar, não sentirá repugnância
alguma para com o réptil e o acariciará afetuosamente. Se tal for o vosso
desejo podeis transformar instantaneamente esse sentido de afeição em de medo,
dizendo-lhe: "Tomai cuidado, ela pode picar-vos". Todos os
hipnotistas de profissão agem desta forma sobre os temores e as emoções dos
seus pacientes. Não provoqueis o medo no paciente. -É demasiado fácil
demonstrar a força do hipnotismo, não empregando senão agradáveis
experiências, deixando de parte as que podem amedrontar o paciente. Eu não
recomendo de modo algum o uso deste último poder para fina menos justificáveis.
O sonambulismo ativo. -O rapaz acha.se agora na
condição denominada "sonambulismo ativo".Fizestes-lhe passar pelo
espírito uma ilusão, isto é, destes-lhe um objeto que, pela vossa sugestão, transformastes
em outro e, desta maneira, produzistes a ilusão dos sentidos. Dizei-lhe agora:
"Ponhamos a serpente de parte", e retirai-lha.Passai-lhe, então,
vivamente, uma ou duas vezes, a mão pelo rosto e dizei: "DOrmi"'. É a
única coisa necessária para transformar a condição do sonambulismo ativo em
sono profundo.
Ilusão do sentido do gosto. -Deixai.o de pé por
uns instantes cambaleando ligeiramente, e dizei-lhe: "Gostais muito de
frutas, maçãs e laranjas. Eis aqui três" bonitas maçãs, de uma qualidade
rara, e podeis comê-las. Crede que nunca saboreastes tão boas e açucaradas.
Tomai-as e comei-as".Podeis dar-lhe, então, uma batata e ele a comerá com
avidez. Até o presente não lhe pedistes que vos falasse, mas vos é lícito interrogá-lo
e ele vos responderá. Perguntai-lhe se a maçã lhe sabe bem e, caso não vos
responda imediatamente, sugeri.lhe que pode falar tão bem como se estiVesse
acordado. Dirvos-á, então, que a maçã estava excelente e desejava outra.
Induzistes, assim, a ilusão do sentido do gosto.
Método para reprimir o sentido do olfato.
-Podeis tomar o mesmo paciente e, em pouco tempo, aperfeiçoa-lo tanto, que vos
é possível priva-lo do sentido do olfato; um vidro de amoníaco posto debaixo
de suas narinas não produzirá nenhum efeito.Podereis, pela sugestão, tomar uma
garrafa de amoníaco por uma de água de Colônia, e ele respirará o perfume com
muito prazer. A variedade de experiências que se podem fazer pela ilusão dos
sentidos é muito grande e para produzir tais ilusões é inútil que eu vos ministre
mais indicações. Jamais notei que o paciente ficasse sofrendo pela indução de
ilusões inofensivas, mas não vos aconselho que as empregueis com muita
freqüência.

Evidência do emprêgo das ilusões. -Essas
experiências não são úteis senão. para demonstrar.vos sem a menor dúvida, que
exIste no espírito humano um poder superior ao sentido perceptivo da vida
cotidiana. Elas demonstram a verdade e o poder do hipnotismo e essa
demonstração deve bastar-vos sem que procureis abusar delas.
A alucinação da vista. -Depois de lhe haverdes
permitido descansar por alguns segundos e de lhe haverdes dado ordem de dormir,
como nas experiências precedentes, podeis dizer à criança: -"Quando
abrirdes os olhos, vereis vossa mãe assentada no. canto do aposento. (Importa
assegurar-vos, de antemão, muIto naturalmente, que a mãe do rapaz é viva).
Vossa mãe vem ver o que estais fazendo e ficareis muito contente de vê-la e
falar-lhe Quando abrirdes os olhos, dirigir. Vos-eis para O lugar do quarto
onde ela está sentada e conversareis com ela; contar-me-eis o que ela diz.
Abri os olhos e ide para ela". Nesse momento, o rapaz vê para sua mãe, depois
de ter olhado atentamente para o lado do aposento em que ele julga vê-la; terá
uma longa ou curta palestra com ela, seguindo a sua disposição natural do
estado de vigília. Se naturalmente tagarela, falará muito e lhe fará mil
perguntas o se interessará muito pelas suas respostas. Produzistes, assim, no
menino uma alucinação, isto é, criastes-lhe no espírito uma imagem que não
existia na realidade. Podeis, agora, estabelecer uma distinção nítida entre a
ilusão e a alucinação.
Método para converter o Sonambulismo em Sono
-Aproximai-vos, agora, do rapaz, farei-lhe um passe com as mãos sobre os olhos
e deizei-lhe: -"Dormi. Depois disso, não temereis de modo algum o
hipnotismo e dormireis imediatamente, a qualquer momento do dia, quando eu
vo-lo ordenar e vos manifestar o desejo. Tomareis, em seguida, para a vossa
cadeira e caireis num sono profundo; far-vos-ei, durante aquele tempo, as
Sugestões necessárias para curarvos a preguiça - Voltai para a vossa cadeira e
adormecei-vos profundamente"- Deixai-lhe cinco minutos de descanso e
observai um silêncio absoluto no aposento.
Método para ministrar sugestões instrutivas.
-Ponde, em seguida, fortemente a Vossa mão sobre a sua cabeça e dizei:
"Estais muito atrasado nos vossos estudos e sois um menino preguiçoso. Não
sois de índole preguiçosa e desobediente e, a partir de hoje, há-de esperar-se
em vós uma transformação. A vossa aspiração única é conseguirdes muito bons
resultados nos vossos estudos; obedecereis a Vossos pais e sereis um excelente
rapaz em estudo- Gozareis de boa saúde e,. desde agora, sereis vigoroso, ativo
e feliz. O vosso caráter é naturalmente bom e tudo quanto possuirdes de bom há
de manifestar-se no exterior. Neste mesmo instante, enxotamos a preguiça o a
desobediência. Dormi durante uns dez minutos e, ao cabo desse tempo, acordareis
bem disposto e a vossa memória ficará firme nas coisas que acabam de
rea1izar-se- Não tereis nenhuma lembrança das sugestões que vos foram dadas e
não haverá no vosso espírito nenhum traço das ilusões que nele foram
provocadas. Dormi profundamente e acordaivos dentro de dez minutos"-
Guardando sempre o silêncio no aposento, assentai-vos a alguma distância do
rapaz e, exatamente no fim de dez minutos ou talvez um pouco mais cedo, ele se
despertará em boas condições
-No caso de um Sono profundo- -É raríssimo que
o paciente adormeça tio profundamente que não possa despertar-se no momento
desejado- Não tendes, nesse caso, senão que dirigir-vos para a sua cadeira e
colocar a VOSSa mão sobre a sua cabeça, dizendo: "Descansastes bem, e vos
sentis muito à vontade Quando eu contar três, acordareis completamente. Um,
dois, três; despertai-vos"
No mesmo instante, o paciente abrirá os olhos e
ficará talves, admirado do comprimento do tempo que decorreu desde que se
assentou. Não há perigo que o paciente durma por mais tempo do que o que lhe
sugeristes ou que o não possais despertar, a não ser que omitais certas
prescrições importantes que vos serão dadas no capitulo seguinte. Existe certo
perigo e deveis bem compreender que, em certos casos, um paciente possa
continuar a dormir e ã resistir ã todos os vossos esforços tendentes a
acorda-lo. Eu me proponho a explicar-vos, mais tarde, ã causa e também o
porque; como operador sois responsável pela provocação de semelhante estado.'
LIÇÃO IX
O espírito semiconsciente. -Até o presente, não
vos tenho ministrado senão métodos característicos para chegar a produzir o
hipnotismo nos pacientes. Estais, agora, preparado para a introdução seguinte,
que se relaciona com o papel que o. espírito semiconsciente representa nestes
fenômenos. Uma simples explicação farvos-á compreender melhor a verdade da
proposição que o homem possui uma dupla consciência; existe outra consciência
chamada "semiconsciência".
A evidência de uma dupla consciência.
-Compreendeis perfeitamente o fato seguinte: quando sonhais de noite, fazeis
uso de uma inteligência ou de uma consciência que, nos seus caracteres
principais, difere da consciência desperta. O ponto capital dessa diferença
descansa no fato de que a consciência dos sonhos carece de sentido. É a
ausência da inteligência que distingue principalmente a consciência da
semiconsciência. Por outro lado a semiconsciência tem muita semelhança com a
consciência; isto é, a vida durante o sono e a contraparte quase exata da vida
no estado de vigília.
As criações da nossa consciência durante o
sonho são formadas das experiências feitas quando estamos despertos. As
pessoas que nos aparecem nos sonhos e que existem realmente são quase sempre as
pessoas que temos conhecido ou que conhecemos na vida real. Por isso, podemos
dizer que essas duas condições de espírito, no estado de vigília e durante o
sono, ainda que distintas em si mesmas, estão estreitamente ligadas uma à oUtra
e têm relações comuns.
Propriedades comuns. -Uma dessas propriedades é
a memória. Ao mesmo tempo que, no homem acordado, a- memória é uma serva
traidora e inconsciente, na vida semiconsciente a memória se acha
prodigiosamente desenvolvida.
Todos os eventos da vida são registra dos no
espírito semi-consciente. É o diário da alma e parece que, quando se levantar
o véu da semiconsciência com as suas penas e ansiedades, essa memória
semiconsciente produzirá exemplos prodigiosos do seu poder. deste modo, os
homens que se acham repentinamente face a face com a morte, vêem, num instante,
como uma vista panorâmica, todos os eventos da sua vida passada. O véu entre a
consciência e a semiconsciência é, às vezes, de um tecido de tal maneira
delgado que muitas pessoas passam uma grande parte da vida acordada em
devaneios e, para elas, a semiconsciência é, muitas vezes, mais real que a
consciência. Por meio do hipnotismo, podemos fazer desaparecer esse véu e dar
ao indivíduo o uso das faculdades semiconscientes em toda a sua força.
A credulidade dos pacientes semiconscientes. -O
espírito semiconsciente está sempre prestes a crer no que se lhe diz. Não
duvidadas sugestões nem se opõe a elas, da mesma forma que não podeis vos opor
aos vossos sonhos durante a noite. Onde se assenta o força. -Por isso é que se
pode definir como sendo o estado de repouso consciente e da atividade semi.
consciente, e para resumir: "O hipnotismo tem valor como potência curativa
porque a força do individuo repousa no espírito semiconsciente. Aí é que está a
força motriz. O espírito desperto ordena e, imprimindo sua ordem sobre o
espírito semiconsciente, este último aceita, recebe a acredita no que é
sugerido e executa a ordem. Isto é verdade no individuo na vida acordada, como
no individuo, na hipnose. A força de cura reside na semiconsciência.
"Vis medicatrix
naturoe". -É lei divina que a natureza faz desaparecer as moléstias e
retifica as desordens, tentando sempre faze-lo sem algum auxílio. Mas, algumas
vezes, pelo falso pensamento do espírito desperto, a semiconsciência anda de
tal modo penetrada de erro e falsas crenças, que é impossível, sem assistência
desembaraçar-se dos males que nos cercam. O hipnotismo é um simples meio para
proporcionar ao espírito semiconsciente a assistência exterior. As sugestões do
operador agem como um guia e um sustentáculo do espírito semiconsciente
combatem as suas falsas crenças e tomam a pôr em movimento a força divina da
cura que pertenceu ao espírito semiconsciente. Lembrai-vos de que, na
consciência do estado de vigília, a força da cura não é aparente. É um
patrimônio da economia semiconsciente e pode ser desenvolvida pelo próprio
indivíduo em proveito pessoal, dirigindo-se a se mesmo como poderia faze-lo o
operador no hipnotismo; ou pode ser desenvolvida pelo hipnotismo como acima já
se deixou minuciosamente explicado. O que importa saber aqui é se um homem
cura a si mesmo de uma moléstia ou, antes, se é curado por outro; os meios
empregados para produzirem a cura são identicamente os mesmos, e consistem na
impressão feita por um espírito consciente. Aos primeiros meios se chama
"auto-.sugestão"; aos outros, "hipnotismo".
LIÇÃO X
Diferença entre o hipnose e o sono natural - Já
tratei da memória exaltada, da qual mostrei uma evidência durante a hipnose.
Sendo assim, não classifico precisamente na mesma categoria o hipnotismo e o
sono natural. Durante a hipnose, a inteligência fica inteiramente anormal. No
caso em que o paciente fique abandonado a si mesmo, sem ser desarranjado pelas
vossas sugestões, ele passará sempre do estado da hipnose para um sono
profundo. Por conseguinte, podemos dizer que, se a hipnose é tirada do sono,
ela pode voltar a ele.
Cura durante o sono natural. -Assim como a
hipnose é desenvolvida no sono artificial, assim também pode ser derivada do
sono natural. Muitas curas são diariamente feitas na América por pais que
estudaram os princípios da cura e, durante o sono dos filhos, falando-lhes e
obtendo respostas, têm conseguido corrigir.lhes os maus hábitos, faze-los
progredir nos seus estudos e melhorar-lhes a saúde. O ponto capital desse tratamento
é que os pais ou o operador devem prender a atenção do dormente. O assunto foi,
pela primeira vez, inteiramente revelado ao público num tratadinho que escrevi
em Junho de 1897, intitulado: "A educação durante o sono", e
apresentei exemplos de curas que eu pudera obter deste modo, moléstias tais
como a gagueira, a enuresia, a coréia, o estado nervoso, o medo e os maus
hábitos, doenças que facilmente cederam ao gênero de tratamento. Lembrai-vos do
que vos foi dito na lição precedente acêrca do poder que reside no espírito
semiconsciente, e podeis desde logo inteirar-vos da filosofia deste sistema.
O método reproduzido na França. -Cerca de um
ano depois que publiquei esta descoberta, o doutor Paul Farez fez aparecer na
"Revista de Hipnotismo", de Paris, uma série de artigos perfilhando a
minha teoria e os seus resultados. Quase todos os fisiologistas são acordes,
agora, em dizer que a influência educadora e moral pode ser gravada desta
maneira no espírito dos dormentes. O método a seguir é sempre o mesmo, e não é
necessário pormenoriza-lo. Mostramo-vos, nas lições precedentes como devem ser
ministradas as sugestões positivas. Suponhamos, pois, que é sempre fácil
ensinar por imagens, que tendes um filho que possui o sestro de gaguejar,
sestro que é mais facilmente apanhado pelas crianças, ao imitarem seus
companheiros. A fim de tratardes com bons resultados esse hábito, deveis dizer
ao menino: -"Hei de vir ver-vos esta noite, quando estiverdes dormindo
profundamente, e vos falarei. Não ficareis surpreendido de ouvir-

me falar-vos e não carecereis de acordar-vos, mas tendes que me
responder quando eu vos falar".
Método para dar sugestões durante o sono.
-Depois de haverdes dado todo o tempo necessário para deitar-se, ireis procura-lo
e, deitando-vos a seu lado, acariciar-lhe-eis a fronte, a fim de instruí-lo da
vossa presença, sem, entretanto, desarranjá-lo do seu sono a ponto de
acordá-lo. Naturalmente, o menor barulho o despertaria e, para desenvolver
este tratamento, ser-vos-ia, então, necessário usar do mesmo processo que na
hipnotização do paciente. Dir-lhe-eis, pois, que tudo vai bem, que deve fechar
os olhos imediatamente e que se ponha de novo a dormir. Fazei estas sugestões
com toda a ênfase, cujo efeito é entorpecê-lo, preparando-o para o sono;
adormecerá logo profundamente e não se despertará, quando lhe falardes. Não há
muita probabilidade de que ele se acorde, se souberdes conduzir a experiência.
Deveis dar provas de uma paciência muito grande, a fim de captar-lhe, lenta e
gradualmente, toda a atenção. Não deveis apressar-vos em levantar a voz. Falai
em tom muito lento e bem claro, mas sem precipitação.
Processo para ministrar sugestões calmantes.
-Dizei tranqüilamente: "Estais dormindo profundamente e não podeis
acordar-vos; estais-me ouvindo a voz; nada do que eu vos disse vos perturbará
durante o sono. Quando eu vos falar, podeis responder-me. Senti-vos bem?"
Não vos responderá, muito provavelmente, desde logo. Importa que o acostumeis a
responder-vos sem acordar-se; continuareis, pois, a acariciar-lhes levemente
a fronte, atraindo-vos toda a sua atenção. Ponde-lhe de leve um dedo sobre a
boca e dizei: "Quando eu vos tocar a boca, podereis falar; podeis dizer
sim". A criança moverá, geralmente, os lábios e fará menção de articular
um som, mas não ouvireis nenhum. Ao verdes esse movimento dos lábios podeis
repetir a sugestão e afirmar-lhe, positivamente, que na noite seguinte poderá
falar-vos com toda a facilidade.
Cura da gagueira. -Ocupai-vos, então, em
dar-lhes as sugestões necessárias à cura da gagueira, como as seguintes:
"Vereis amanhã que vos será facílimo falar sem nenhuma hesitação na vossa
conversação. Falareis tão bem, tão corretamente, tão claramente como eu. Não
gaguejareis nem hesitareis na vossa conversação". Repeti-lhe estas
sugestões uma vez maia, fazendo.as muito enfáticas e positivas; deixai.o,
então. Provavelmente, na manhã do dia seguinte, não terá nenhuma lembrança do
que lhe dissestes, mas percebereis uma sensível melhora na sua pronunciação e
pode acontecer que, no correr do dia, as vossas sugestões lhe voltem ao
espírito pela sua memória semiconsciente e ele seguirá, então, o que lhe dizeis
e de que modo lhe dissestes. Pode acontecer, também, que não se lembre de nada
do que se passou. Tudo depende, principalmente da profundeza do sono induzido.
O processo torna-se mais fácil com a prática. -Na noite seguinte e nas
subseqüentes, notareis que achais menos dificuldade em obter uma resposta dêle.
Uma experiência de sonambulismo passivo. -Se
desejais tentar uma experiência para vos convencer da influência que um
espírito pode exercer sobre outro durante o sono natural podeis dar a forma que
vos aprouver ao sonho do dormente" Podereis sugerir ao menino que ele é
soldado e se acha à frente das suas tropas e, no seu sonho, ele passará por
todas as cenas empolgantes de um campo de batalha. Podeis sugerir-lhe que, ao despertar,
se lembre de luta e de tudo o que é concernente ao inimigo e, em realidade,
tudo o que lhe sugeristes que podia realizar-se, e de manhã ele vos contará a
sua visão pormenorisadamente. Não se lembrará, porém, de que fostes vós que lhe
sugeristes tudo isso, e acreditará que foi ele mesmo quem desenvolveu casa
visão. Da mesma forma que apresentastes à sua imaginação o escuculo horrível
de um campo de batalha, podeis sugerir-lhe e impressionar o seu espírito com
visões de descanso ameno e salutar. A lei da receptividade do espírito
semiconsciente é irrefutável. Ela segue dois caminhos. Ela pode também ser
empregada para o mal como para o bem: não deveis, por conseguinte, visar senão
a emprega-1a com as melhores intenções.
LIÇÃO XI
As sugestões pós-hipnóticas. -Entre os
numerosos fenômenos do hipnotismo, nada surpreende tanto ou deixa perplexo o
espectador como as sugestões pós-hipnóticas. Mas se quereis estudar com cuidado
o capítulo que trata da memória semi-consciente, tereis logo a prova desse notável
fenômeno. Elas dependem da perfeição da memória, que é um atributo do espírito
semiconsciente.
Como dar as sugestões pós-hipnóticas. -Para dar
uma sugestão pós-hipnótica, o operador dirigir-se-á ao paciente pelo modo
seguinte, quando este estiver dormindo profundamente: "Dez minutos depois
que eu vos tiver acordado, sentireis um desejo ardente de pôr o vosso chapéu e
de voltar para casa. Tomareis, pois, o vosso chapéu e pô-lo-eis na cabeça;
esquecereis imediatamente o que vos propusestes a fazer e permanecereis na
cadeira, falando-me com o chapéu na cabeça. Não sabereis que vos sugeri que
fizésseis isto". No tempo marcado, dez minutos depois do seu despertar, o
paciente olhará fixamente em redor de si para tomar o chapéu e, depois de tê-lo
achado, o porá imediatamente na sua cabeça e tomará lugar de novo na sua
cadeira. Se o interrogais, vos dirá, com toda a sinceridade, que ele não se
mexeu de sua cadeira e que o seu chapéu não está na cabeça. Se lhe tirais o
chapéu e lho mostrais, por um instante não ficará persuadido, mas, recobrando
as suas idéias, confessará que tentou regressar à casa dele.
O paciente pede excusas pelo seu procedimento.
-É o que ele dirá para vos convencer de que as vossas sugestões não influenciaram
até o ponto de fazê-lo realizar um ato inteiramente alheio à sua consciência.
Ele ficará sabendo que, posto que não se lembre do que lhe dissestes, praticou
evidentemente uma coisa extravagante, de conformidade com as vossas sugestões.
Notareis, neste caso, e invariavelmente em todos os outros, que o paciente
ficou de tal modo vexado de parecer uma simples máquina que obedece às vossas
ordens, que ele trata de se excusar por todos os meios, de forma que vos faça
acreditar que ele sabia perfeitamente o que estava fazendo. Neste caso, ele
realizou uma sugestão pós-hipnótica e como esta linha de experiências admite
um grande número de variações, será bom examina-1as aqui, sob suas várias
fases.
Método para aumentar a força da sugestão. -Para
fazer uma sugestão pós-hipnótica por modo mais seguro, é preferível ligardes a
sugestão a um de Vossos atos que duplicará a força sobre a mesma sugestão. Por
exemplo, suponhamos que dizeis ao paciente, enquanto ele está dormindo:
"Quando me virdes sair do quarto, levantar-vos-eis da vossa cadeira e
adiantareis os ponteiros do relógio e não vos lembrareis do que fizestes".
Tomareis, então, a sugestão pós-hipnótica facílima por ligardes a realização da
vossa sugestão ao ato de deixardes o quarto. Lembrando-vos da tenacidade da
memória semiconsciente, compreendereis porque, quando deixais o quarto, a
vossa sugestão precedente volta ao espírito desperto do paciente sob a forma de
um desejo por não se ter ele recusado a aceita-la no momento em que lha destes.
Quando as Sugestões não dão bons resultados.
-As únicas sugestões pós-hipnóticas que não surtem bom êxito são as que foram
repelidas pelo paciente no momento em que se lhe ministraram. Se o paciente
aceita a sugestão pós-hipnótica que lhe possa ser dada, será cumprida à risca.
Mas se dais ao paciente uma sugestão que lhe desagrada ou que é contrária à sua
moral, ele se recusará a aceita-la no momento em que a sugestão lhe é dada e
ela não fará completa impressão sobre o seu espírito semiconsciente, por causa
da oposição com que ele a recebe.
As sugestões podem ser recusadas. -Para que uma
sugestão surta bom efeito, cumpre que o paciente creia nela firmemente e a
aceite. Admito que, em certos casos, o paciente aceite sugestões desagradáveis
e seja forçado, aparentemente, contra a sua vontade, a praticar certas coisas
que não praticaria se estivesse acordado, mas tenho sempre notado que, num caso
de sugestão pós-hipnótica, o paciente não aceita nada desagradabilíssimo, seja
qual for a insistência usada pelo operador ou por mais enérgica que a sugestão
seja feita. Em presença do operador, o paciente, como eu já disse, fará, às
vezes, coisas que não faria se estivesse acordado, mas na ausência dele, quando
uma sugestão pós-hipnótica se realizou, ele não quererá praticar os atos que
lhe são sugeridos, se são desagradáveis. Isto simplifica muito o processo,
dando-lhe uma base razoável.
Quanto tempo estas experiências podem durar.Uma
sugestão pós-hipnótica pode ser dada ao paciente de modo que produza o seu
efeito, uma semana, um mês ou mesmo um ano, a partir do momento da leilão, e os
atos sugeridos serão fielente executados pelo paciente no instante mesmo
indicado. Isto é uma nova prova da perfeita memória de um espírito
semiconsciente.
O que se chama hipnotismo instantâneo. – Dou
aqui outro exemplo da forma mais conhecida da sugestão pós-hipnótica, a qual é
a mais freqüentemente empregada e de que os operadores de profissão se servem
invariavelmente em cena. Se dizeis ao paciente, quando está hipnotizado:
"Logo que eu entrar no quarto, adormecereis, seja qual for a vossa
ocupação no momento", o efeito é como o sugerido; quaisquer que sejam as ocupações do paciente, ele
cairá profundamente adormecido, desde que o operador entre no quarto e lhe
ordene que durma.
Como triunfar da resistência da paciente. -Acontece, às vezes,
que o paciente resiste à influência; o operador fica, então, posto em prova se
conhece o seu ofício ou se desanima fácilmente. Se e senhor da sua profissão e
adquiriu experiência nesse trabalho, apertará o paciente com sugestões verbais,
sem lhe dar um minuto de reflexão e isto sem hesitação, de modo que penetre o
seu espírito com a idéia de veracidade dos seus dizeres. Suponhamos que o
paciente se tenha recusado a aceitar a sugestão do operador e diga sacudindo a
cabeça: "Não quero dormir e não tendes o poder de me fazer
adormecer". O operador andaria errado se ficasse tranqüilo e de novo lhe
sugerisse-o dormir. Para bem praticar, deverá pôr a sua mão sobre a fronte do
paciente e fechar-lhe os olhos com a outra mão que ficou livre e depois dizer,
convictamente: "Tendes necessidade de dormir, estais cochilando, e agora
ides adormecer-vos. Dormis profundamente e permaneceis de pé". Passando a
mão, uma ou duas vezes, pela fronte do paciente, o sono seguir-se-á da maneira
como a noite sucederá ao dia.
Porque
o operador tem bom êxito quando insiste. -O paciente é um sonambulista,
isto é, aceita prontamente as sugestões. Foi hipnotizado anteriormente pelo
mesmo operador e este pode, de novo, hipnotizá-lo. A sua resistência é nula,
uma vez que o operador saiba imprimir-lhe as sugestões no espírito. Desde que
hipnotizastes um paciente, podeis renovar a operação uma segunda vez. Não há
senão uma exceção a esta regra; é quando, por uma falsa direção e por uma
sugestão má, provocais um sentimento de grande nervosidade no paciente; em tal
caso, nem vós ou nenhum outro, empregando os mesmos meios, será capaz de
hipnotizá-lo de novo. Já tenho, algumas vezes, feito a experiência, mas o
resultado havia sido produzido pelo humor nervoso induzido no paciente pelas
experiência extravagantes às quais tinha sido submetido.
Onde reside o perigo. -Pois
que falamos desse paciente, podemos indicar onde se acha o perigo quando o
operador não pode acordar o paciente que ele hipnotizou. A falta recai
inteiramente sobre n operador, como acima indiquei. Se tratais de imprimir
sobre o espírito do paciente uma sugestão qualquer desagradável à sua índole e
que a não aceite, uma vez acordado, ele fará uma das coisas seguintes: ou não
se despertará imediatamente ou passará por um estado de sono mais profundo; em
tais conjunturas, as vossas sugestões não teriam efeito visível sobre ele.
Recusararia acordar-se e não poderieis chegar a este resultado por nenhum dos
meios ordinários postos em ação para acordar uma pessoa adormecida.
O
que se deve fazer em semelhante caso. -Se vos sucede encontrar-vos com um caso
semelhante, a única coisa a fazer seria abandonar o paciente a si mesmo,
permitindo-lhe sair da sua letargia e acordar-se quando bem lhe parecesse. Não
procureis despertá-lo nem consintais que alguém o toque. Podeis pôr a vossa
mão sobre a sua fronte e dizer, com autoridade: "Como vejo que não
desejais acordar-vos agora, podeis dormir por tanto tempo quanto vos aprouver
e, quando despertardes, sentir-vos-eis perfeitamente bem e completamente curado
da vosso nervosidade. Não sentireis nenhum mal-estar deste sono e podeis
acordar-vos quando bem vos parecer". Se então deixais o vosso paciente a
sós, a natureza recuperará o seu curso e, das profundezas da vida semiconsciente,
o reconduzirá à superfície. Ao despertar, não sentirá, pois mal algum por isso.
Importância
das sugestões pós-hipnóticas. -A sugestão pós-hipnótica é o mau procurado de
todos os fenômenos do hipnotismo, porque ela produz um efeito durável sobre a
semiconsciência. A sugestão ordinária
que derdes a qualquer dos pacientes: "Sentir-vos-eis muito melhor ao
despertar-vos e essa melhora será permanente", é realmente sugestão
pós-hipnótica, porque ela trata de um estado de espírito que não se manifestará
senão quando a hipnose tiver produzido seu efeito. Isto vos fará facilmente
compreender a importância e eficácia da sugestão pós-hipnótica.
LIÇÃO
XII
O
estudo de catalepsia. -Há um estado de hipnotismo conhecido sob o nome
de catalepsia; os profissionais fazem grande caso dele em cena, mas
aconselho-vos muito que o ponhais de lado. Os que têm assistido a sessões
hipnóticas puderam ver um homem ou uma mulher de aparência mesquinha, suspensa
entre duas mesas ou cadeiras, suportar o peso de várias centenas de livros,
sendo os pés e a cabeça os únicos pontos de apoio de todo o corpo. É um estado
de rigidez muscular e certos pacientes manifestam, na prática deste gênero, um
grau de força extraordinária.
Como se provoca. -Provoca-se
a catalepsia pela forma seguinte: Suponhamos que tomamos aquele rapaz que
fizestes dormir e em quem induzistes as ilusões dos sentidos dadas em
pormenores numa das precedentes lições e que lhe digais, fazendo passes ao
comprido do seu corpo, da cabeça até aos pés: "Ficareis completamente
rígido; já não sois um rapaz, sois uma barra de ferro e é impossível que vos
dobreis. Em qualquer lugar ou posição que eu vos ponha, tereis a rigidez de um
cadáver". Imaginemos que tomais, em seguida, aquele rapaz no momento em
que ele cai rígido nos vossos braços e que o suspendeis entre duas cadeiras;
fazendo-lhe repousar a cabeça sobre uma e os pés sobre a outra, tereis um
estado real de catalepsia do palco. Achareis que o seu pulso é rápido, mas
é
probabilíssimo que não notareis vestígio algum do esforço que ele suportou. As
vossas sugestões deverão ser as seguintes: -"Não fazeis esforço algum,
podeis suportar qualquer peso que eu colocar sobre vós". O eleito
produzido nos espectadores é, às vezes, surpreendente. Uma vez acordado ele
tentará, provavelmente, a mesma proeza e ficará surpreendido de ver quanta
dificuldade ele encontra em sustentar-se a si mesmo.
O perigo dessa condição.
-Mas, ainda que este fenômeno de catalepsia seja uma excelente prova do corpo
quando é chamado a agir conforme a sugestão, ele apresenta, por si mesmo,
perigo e até o presente não conheço nenhum operador e nenhum método de
instrução do hipnotismo que lhe tenham demonstrado os riscos. O hábito da
tensão excessiva dos músculos, colocados numa rigidez continua durante o sono,
está sujeito, como qualquer outro hábito, a se implantar na pessoa que executa
esses esforços e um novo e infeliz exemplo da velha história de Jekyll e de
Hyde poderia, então, produzir-se; dai vem todo o perigo. A memória daquele
livro notável

descansa no fato de,
contra a vontade do herói, que é o Dr. Jekyll, o seu
eu inferior se lhe apegar e querer afirmar a sua individualidade.
O
estado torna-se involuntário. -O perigo da prática contínua da
catalepsia é que, durante o sono natural, é muito provável que o paciente
sonhe que está em cena, onde alguém lhe induziu a catalepsia e, então, passe
desse sono para uma condição de rigidez muscular que poderia durar diversas
horas e ser impossível acordá-lo. Tal esforço muscular é fisicamente péssimo e
acaba por debilitá-lo. Uma das melhores catalépticas de profissão, que não teve
competidor no teatro americano, acha-se atualmente internada em um hospício de
alienados do Leste. Este resultado foi devido ao fato dela cair
involuntariamente neste estado, agravado pela força do mal sofrido pelo seu
sistema nervoso, em conseqüência dos exercícios anteriores. Algumas das
pequenas experiências de catalepsia não podem fazer mal a ninguém, mas tudo
quanto se aproxima da brutalidade repugnará certamente ao operador e poderá
ter, talvez, sérias conseqüências.
LIÇÃO
XIII
Como
aumentar a força muscular pela hipnose. -Notareis que, praticando o
hipnotismo em alguns dos vossos pacientes, a força física aumenta de modo
extraordinário durante a hipnose. Sob a influência da sugestão hipnótica,
poderão erguer pesos que seriam incapazes de levantar no seu estado normal.
Eleito
da delicadeza que ela produz sobre os sentidos.- O olfato fica, da
mesma forma, tão delicado pela sugestão, que um paciente poderá, a alguns passos
de distância, descobrir e assinalar os cheiros que outras pessoas que fazem
parte da sessão não poderão distinguir. O sentido da vista pode também tomar-se de tal sensibilidade que o paciente será
capaz de ler pequeníssimos caracteres de imprensa, o que não poderia
fazer no estado de vigília, senão com fortes lunetas. O sentido de ouvido,
enfim, pode ser reforçado a tal ponto que uma pessoa surda ouvirá o
tique-taque de um relógio a muitos metro, de distância. Compreendeis de quando
valor são estes fatos para um médico que emprega o hipnotismo como meio de
cura. Muitos casos de surdez têm sido curados pelo hipnotismo. Neste caso,
tem-se aplicado o poder para dar ao nervo auditivo uma atividade que ele não
possui na vida normal. O nervo ótico pode, de modo semelhante, ser
reforçado pela sugestão até o ponto de paralisar o enfraquecimento da vista e
de dissipar a cegueira. Em toda e qualquer moléstia, tratando-se os pacientes
pelo hipnotismo, é sempre preferível manipular durante a hipnose as partes afetadas.
Como
tratar a enxaqueca. -Para tratar de uma dor de cabeça, passai freqüentemente as
mãos sobre a cabeça do paciente e sugeri-lhe que a congestão foi tirada, que a
dor desapareceu e não reaparecerá mais e, principalmente, friccionai bem o
couro cabeludo, com 01 dedos. para fortifica-lo. Unicamente, tem-se demonstrado
que o hipnotismo cura, geralmente, as dores de cabeça por causa do afrouxamento
que dele decorre Esse afrouxamento, estendendo-se aos vasos sangüíneos, permite
à sugestão acalmar-se e desfazer, assim, a pressão sobre os nervos, o qual era
a causa da dor. Para curar o reumatismo, não é suficiente sugerir ao paciente
que o seu reumatismo desapareceu e não voltará mais. Notareis que durante o
sono hipnótico podeis pôr a Vossa mão sobre a parte inflamada; se tocais nela
quando o paciente está acordado, ocasionar-lhe-eis os maiores sofrimentos. O
grito de dor que se repercute da parte inflamada ao cérebro e que se transmite
por este último à consciência, não é ouvido durante a hipnose. A vossa sugestão
de que não há dor sobre a parte doente é a mais poderosa sugestão das duas. Tal
é o mandamento que o cérebro impõe à consciência em que esta acredita
realmente.
Análise
racional da causa da dor. -O resultado é que cortastes a comunicação entre
o cérebro e a causa da dor no cotovelo, no joelho, no punho e em toda a parte
onde se pode achar. De acordo com este princípio, todas as curas de estados
inflamatórios são feitas pelo hipnotismo. É o mandado de analgesia que
enviais ao cérebro que corte a comunicação entre a antiga condição dolorosa e a
consciência. O resultado é que a dor desaparece.
Como tornar o cura durável.
-Por meio da força que, como já vistes, se encontra numa sugestão
pós-hipnótica, vos é agora possível tomar permanente essa condição de analgesia; por isso, quando dizeis: "A vossa dor
desapareceu completamente, não voltará mais", continuais a interromper a
comunicação entre o cérebro e a sede da dor; o resultado é que o reumatismo se
acalma. Se ele volta, como muitas vezes sucede, apesar da vossa afirmação
absoluta em contrário, é necessário hipnotizar de novo o paciente e repetir as
sugestões, lembrando-vos de que é o único gênero de cura que, de si mesmo, seja
inteiramente natural. Ele, forçadamente, surte bons efeitos, por fim, porque é
o método curativo da natureza. Pouco importa o número de vezes que a moléstia
possa reaparecer, porque, pelo tratamento hipnótico, as suas manifestações são
forçadas a diminuir até que a moléstia se submeta e desapareça inteiramente do
sistema. Essas duas formas de tratamento, uma para as dores de cabeça outra
para os reumatismos, podem naturalmente apresentar-se boas formas diferentes.
Modos
de proceder nos casos de reumatismo. -No tratamento dos pacientes
reumáticos, começo sempre a friccionar gradualmente a parte doente; se acontece
que o braço é a sede da inflamação, movo-o brandamente para a direita e para a
esquerda, primeiro por graus, depois com mais força, afirmando de continuo e
positivamente ao paciente que a dor desaparece, que ela passará e não voltará.
Verifiquei sempre que, desde o primeiro tratamento, me era possível, por meio
de sugestão, levar o paciente a alongar inteiramente o braço que ele não podia
antes mover sem dor.
LIÇÃO
XIV

Um processo
apreciável. -Lembrando-vos o método para dar sugestões pós-hipnóticas, achareis
agora que é uma demonstração que impressiona o vosso
paciente, se adotais o método seguinte para ficardes em comunicação com ele.
Adormecei-o e, quando estiverdes seguro de que está perfeitamente sob a vossa
influência, dizei.lhe: -"Vou dar-vos um talismã que vos proporcionará um
sono profundo e reparador quando tiverdes necessidade dele em qualquer
momento. Seja qual for a vossa insônia, no mesmo instante em que tomardes este
objeto do vosso bolso ou de onde quer que o guardeis, se os vossos olhos lhe
caem em cima, passareis imediatamente para um sono profundo". Tomareis,
então, um pedaço de papel ou o vosso cartão de visita, o que será preferível, e
escrevereis nele, em letras graúdas, a palavra: -"Durma". Agora
dizei-lhe que abra os olhos e olhe para o cartão que lhe pusestes na mão. Feito
isso, repeti-lhe com força que todas as vezes que os seus olhos tombarem sobre
aquele cartão, ele cairá imediatamente numa hipnose profunda. Direi-lhe que vos
ouvirá falar-lhe e ordenar-lhe que durma.
A Sua eficácia na ausência
do operador. -É um excelente método o fornecer dito cartão a um dos vossos
pacientes que padeça de insônia, porque, coisa estranha, ainda que o paciente
tenha feito, na metade da noite, esforços inúteis para dormir, logo que ele
ache esse Talismã, que deixa os olhos cair-lhe em cima, fica restabelecido o
equilíbrio nervoso do sistema e ele adormece. A coisa mais extraordinária desta
experiência é que, durante anos, o cartão conserva sempre a sua força
hipnótica, e será tão bom em cinco anos como o é hoje.
O hipnotismo a distância.
-Quando houverdes adormecido um paciente duas vezes ou mais, quando já está,
por conseguinte, bem habituado à vossa voz e ao vosso método para empregar a
sugestão, notareis que podereis adormecê-lo tão facilmente pelo telefone ou por
carta, como se estivesseis diante dele.
LIÇÃO
XV
O
valor do hipnotismo paro o médico. -Na prática de todos os médicos se
apresentam cada dia ocasiões para fazer uso do hipnotismo; hoje em dia
servem-se dele com freqüência. É um fato bem conhecido que existem, na
experiência de todos os médicos, certos casos de dor e insônia, provenientes de
excitação cerebral, sobre os quais as drogas não exercem efeito algum. Por
infelicidade, em tais casos empregam-se as mais das vezes, injeções de morfina,
e o perigo, desde o inicio, é que se contraia quase sempre o hábito. O
verdadeiro método que o médico deve empregar em todos esses casos é a sugestão
hipnótica, exceto se houver delírio. Não é necessário pronunciar a palavra
hipnotismo, porque esta palavra, soando mal por si mesma ao ouvido do doente,
tem, muitas vezes, por efeito excitar ainda mais os seus nervos.
Como
o doutor pode empregar a sugestão. -É somente necessário que o doutor se
assente ao lado do doente, tome-o pela mão e lhe diga com brandura e convicção:
"É preferível, neste momento, que não vos dê droga alguma. Há um
meio pelo qual posso deter essa dor de que padeceis e proporcionar-vos um sono
profundo e reconfortante. Nada há que receiardes nem deve ficar inquieto.
Peço-vos somente que façais o que eu vos disser; fixai os olhos sobre os meus e
deles não os arredeis a pretexto algum. Vou tirar-vos a dor em pouco tempo,
enquanto vos entorpecereis e pegareis no sono suavemente". Em seguida,
deveis sugerir ao paciente que aumente o seu torpôr
como já vo-lo expliquei claramente nos capítulos precedentes
e deveis também recordar-vos de que, neste caso, não é necessário ou mesmo
judicioso servir-vos de experiências para determinar a rigidez dos
braços.
Os efeitos produzidos.
-Quase imediatamente em resposta à sugestão do médico, a dor diminuirá e, com a
diminuição da dor, a receptividade à sugestão aumentará a tal ponto, que as
sugestões seguintes farão sobre o espírito do doente uma impressão cada vez
mais profunda. Deste modo, pode-se induzir o sono com grande facilidade. Quando
o doente parece adormecido, o médico deve abandonar-lhe
a mão e friccionar-lhe brandamente os braços desde os ombros até à extremidade
dos dedos; em seguida, repetirá as fórmulas com muita brandura para que o
enfermo passe para um sono profundo, calmante, e se desperte lépido, cheio de
força e livre de tôda dor. Em todos esses casos, é até inútil tentar paralisar
a ação muscular, nem mesmo e necessário dizer ao doente: "Não podeis abrir
os olhos".
Não
façais tentativas. –Lembrai-vos de que nunca é permitido fazer uma
tentativa. Contentai-vos com a sugestão positiva e pedi ao doente que não
desligue de vós o seu olhar. A diminuição da dor e o sono que lhe segue são
ambos produzidos pelo efeito calmante sobre os nervos que assegura este novo
modo de proceder; a causa indireta é que a atenção do doente é desviada da dor
para ser dirigida a outro ponto. Quando a sua atenção se distrai, cumpre chamá-la
à realidade e como o cérebro humano é incapaz de suportar, ao mesmo tempo, duas
emoções diferentes, segue-se que o doente se apegará à que é mais agradável e
proveitosa a sua saúde. Por isso, é levado por si mesmo a fixar toda a sua
atenção sobre a sugestão do médico e a repetição das palavras dele produz um
efeito positivo e pronunciado sobre o espírito do doente; a ação mental obtém
um resultado que não se determina nunca com as drogas mais enérgicas.
A atitude da profissão médica.
-Eu desejaria que cada médico compreendesse bem, aqui, a simplicidade da
sugestão hipnótica, mas receio que, em virtude da sua educação puramente
material, seja levado a desdenhar de um meio de tratamento tão simples
e escoimado de todo mistério. O conflito humano na lei divina da cura tem
sempre exigido, infelizmente, que julguemos do valor de um médico pela
dificuldade de tomarmo-lo e pela sua natureza desagradável. Avaliamos uma
operação cirúrgica na proporção do seu perigo. Estimamos o valor de uma droga
pelo seu efeito destruidor sobre os tecidos e pelas propriedades venenosas,
quando se administra em alta dose.
As
forças mais simples são as mais poderosas. -Não compreendemos ainda como
os meios mais simples são também os mais poderosos e que a força de sugestão é o
fator mais poderoso da felicidade humana, da saúde, da miséria e da moléstia.
O espírito tem sempre governado e governará sempre. Por isso, devemos consagrar
o nosso estudo à lei da cura que atingir o espírito de modo mais direto.
LIÇÃO
XVI
Método
para influenciar as mulheres nervosas. -Instalai confortavelmente a paciente
sobre um sofá e dai-lhe, depois, as direções seguintes: "Fazei exatamente
tudo o que eu vos disser que façais. Far-vos-ei
dormir contando em voz alta certos números e, enquanto eu contar, devereis
abrir os olhos e fechá-los em seguida. Agora fechai os olhos e conservai-os
fechados até que eu comece a contar "um"; abri-os por um segundo,
olhai-me e fechai-os de novo. Quando eu contar "dois", abri-os por um
segundo e fechai-os de novo, etc". Depois, continuai a contar brandamente
de um a vinte e fazei uma pausa de dez segundos entre cada número. Recomeçai de
novo em "um" e desta vez fazei uma pausa de quinze segundos entre
cada número." Nunca fui obrigado a continuar este método além do número
três: naquele momento, o doente tinha tanta vontade de dormir, à força de se
aplicar a seguir o curso das minhas direções, e o seu desejo de seguir este
simples exercício era tal, que ele adormecia rapidamente, depois de algumas
sugestões tranqüilizadoras.
Porque este método surte bom efeito. -A filosofia deste sistema
é: 1º) que ele não apresenta nenhuma dificuldade ao doente; 2º) que
mantém alerta a atenção até que o torpor apareça; 3º) que o simples ato
de abrir e fechar os olhos produz, freqüentemente, uma sensação de peso sobre
as pálpebras, e isso é, por si mesmo, uma forte sugestão para o sono; 4º) que o
fato de estarem os olhos fechados torna o doente mais sensível às sugestão e à
idéia do sono, impedindo que o doente veja os objetos que o cercam, e é por
isso que o espírito se toma imediatamente menos ativo e hostil à operação. Os
médicos têm me dito que, por este meio, conseguiram, em alguns casos mais
obstinados, induzir um sono profundo. Seria um grande erro supor que, pelo fato
de não haver um método dado bons resultados com um doente, não poderia este
dormir por nenhum outro método.
Estudai os vossos doentes.
-É necessário considerar a disposição do doente, determinando a sua
susceptibilidade à sugestão e é preciso admitir que a novidade e a excitação
são o seu fator perturbador na hipnose profunda. Por isso, não deveis ficar
pesaroso se, não obstante os esforços repetidos para adormecê-lo, o paciente
vos disser que isso não lhe produz nenhum efeito. É mister simplesmente dizer-lhe
com calma que, se ele é humano, e disso estais convencido, é somente necessário
achar os verdadeiros meios para influenciá-lo de modo que o induzirá à hipnose
com êxito.
Não
vos desanimeis nunca. -Há um segredo para o hipnotizador sair-se bem:
-nunca deve confessar que está desanimado nem admitir a possibilidade de um
fracasso. É bom método tomar um doente que se tem mostrado refratário a aceitar
a sugestão quando está deitado sobre o sofá ou assentado numa cadeira, e
fazê-lo levantar-se dizendo que feche os olhos; adormecê-lo-eis fazendo passes
magnéticos. Ficai por detrás dele e fazei-1he longos passes, desde a cabeça até
aos pés, acompanhados da sugestão verbal de que ele sentirá a influência,
atraindo-o para trás e que uma sensação de torpor o invadirá com uma força
crescente, até que, finalmente, ê1e perca o equilíbrio e caia nos vossos
braços.
Valor
de uma mudança de método. -Sucede muitas vezes, que, com essa mudança de
método, podeis conseguir a indução de um sono profundo e o sonambulismo numa
pessoa que sempre considerastes como um paciente impossível. Explica-se isto
pelo modo seguinte: "Assim como o caráter e a aparência de dois homens
nunca são idênticos, assim também nenhum método terá a mesma influência
sobre todos. Mas entre essa abundância de material dado aqui, podereis tirar
alguma coisa que convirá a cada indivíduo, normal ou anormal, e
perseverando-.se com assiduidade, sem admitir nenhum fracasso, o bom êxito
final está garantido, pois que o segredo da hipnose é essencialmente o segredo
de produzir uma boa impressão sobre o espírito de outrem.
LIÇÃO
XVII
O
hipnotismo para o dentista. - Aquele que conhece a sugestão hipnótica e
que compreende a sua aplicação, aprecia muito as inúmeras oportunidades que se
apresentam na prática de um dentista para aplicar nos seus doentes esta
ciência, como meio de fazer desaparecer a dor durante a operação sobre um dente
dolorido. Mas, em geral, os dentistas preferem servir-se daquela droga pérfida
chamada "cocaína", do que induzir a analgesia pelo processo natural
que a natureza deu ao homem. O homem possui a força para reprimir a idéia, e o
emprego de uma droga qualquer para tal efeito é uma infração às leis da
natureza, a qual se fará sentir amargamente. Hoje não existe nenhum hábito de
droga tão difícil de combater e que aumenta tão rapidamente como o hábito da
cocaína; o emprego exagerado dessa substância pelo dentista e pelos médicos é
uma matéria que demanda a vigilância do governo. Pouquíssimas pessoas sabem que
a cocaína faz mais vitimas do que o álcool.
O
objeto brilhante empregado como método. -Em todos os gabinetes dentários
há discos e instrumentos de níquel ou de prata como brilhantes. Um objeto
brilhante atrai mais facilmente a atenção do doente do que um objeto sombrio, e
o modo de atenuar a dor de uma operação dentária e, às vezes, extingui-la
completamente, cifra-se no dentista fazer ao doente sugestões verbais muito
enérgicas, enquanto lhe pede que fixe os olhos sobre um objeto colocado diante
dele, a uma distância de cerca de dois pés e tendo quase duas polegadas de
diâmetro.
Evitai a palavra hipnotismo.
-Relativamente ao que se vai seguir, é inútil, e seria mesmo um erro, que o
dentista empregasse a palavra hipnotismo. Deverá somente fazer compenetrar-se
o seu doente do fato de que, se quiser seguir as suas instruções, não sentirá
praticamente nenhuma dor em relação à operação. Ele poderá, em seguida, tratar
de induzir o sono, empregando as mesmas fórmulas dadas nas lições precedentes e
não sentirá nenhuma dificuldade em tornar profundo esse sono. Deverá, então,
dirigir-se ao dormente como se dirigisse a uma pessoa inteiramente acordada e
dirá: "Quando eu passar a minha mão pelo vosso rosto, abrireis a boca e
ela ficará aberta até que eu vos ordene que a fecheis. Não sentireis até que eu
vos ordene que a fecheis. Não sentireis nenhuma dor nem mal-estar ou
nervosidade enquando eu obturar este dente; quando eu vos disser que vos
levanteis e laveis a vossa boca, não acordareis. Fareis tudo quanto eu vos
ordenar que façais, mas não vos despertareis. Depois da operação, não tereis
nenhuma recordação do que vos sucedeu; não experimentareis nenhuma dor nem mal-estar
algum". Ainda que em geral, os médicos, na sua prática diária da sugestão
hipnótica, não lhe apreciem o valor como meio de atenuar a dor, reconhece-se
hoje que, nos Estados Unidos, um grande número de dentistas emprega
continuamente o hipnotismo e estes poderiam referir, se o quisessem, muitas
operações admiráveis que foram realizadas sem dor, por meio do hipnotismo.
Porque os dentistas não
aconselham francamente a hipnose. -Eles não divulgar o fato, porque a
ignorância do público é tão grande que se ele ficasse sabendo que os médicos
usam do hipnotismo para operar sem dor, a clientela sofreria sériamente com
isso e ele correriam o risco de serem perseguidos. Talvez não venha longe o dia
em que o hipnotismo assuma de direito o lugar que lhe compete (entre aqueles
que têm por missão aliviar o sofrimento alheio) como o maior dos remédios
benéficos da natureza.
LIÇÃO
XVIII
O
hipnotismo aniquilador da dor. -Na época em que o doutor Esdaile fazia
operações cirúrgicas, nas Índias, servindo-se da anestesia hipnótica e em que
o doutor Ellizon aplicava, na Inglaterra, os mesmos meios, a descoberta do
valor do clorofórmio e do éter como agentes da supressão dos terrores que
apresenta a cirurgia, lançou o hipnotismo completamente na sombra. Apagou-se o
seu facho em realidade e o médico pode dispensar-lhe o concurso. Ainda que o
clorofórmio, muito longe de satisfazer completamente, destrua quase tanta gente
quanto a própria moléstia, podemos reconhecer-lhe o valor e conceder-lhe o
direito de agente benéfico, contanto que seja criteriosamente utilizado. Mas
isto nada tem que ver com o fato da existência no homem, de uma força capaz de
prover e prevenir o retrocesso do sofrimento.
A
força do homem.-Achando-se a força no interior, só temos que agir para pô-la em
prática. Podemos fazê-la aparecer melhor durante o hipnotismo, pela forte
sugestão de uma ordem. A ordem: "Não haverá mais padecimento",
equivale à resposta do doente, que tem por efeito o não admitir que ele sofra
nenhuma dor. É, pois, fácil de compreender que a força jaz essencialmente
dentro do enfermo. É a sua própria força posta em ação por outrem. Ele
poderia duvidar dela, deixar de crer nela. Ainda que não
estivésseis nas condições de convencê-lo, essa força reside, não obstante,
nele. Mais eis aqui a explicação lógica de toda a questão.

A dupla natureza da força. -As forças do corpo são sempre duplas,
correm sempre paralelamente. Estamos constantemente em presença de duas
forças: a impulsiva e a proibitiva; a que age e a que detém, a que sofre e a
que impede o sofrimento. Só a consideração de que o doente se acha em estado
de sentir a dor é um argumento suficiente para provar que ele tem também o
poder de acalmá-la.
A exaltação do êxtase religioso. -Há uma
condição da ação do espírito exaltado que foi caracterizado no caso dos
primeiros mártires cristãos. Ele é de tal modo superior ao sofrimento físico
que, ainda que as pessoas em questão não se achassem de modo algum sob a
influência do hipnotismo, mas estivessem em plena posse das suas faculdades,
elas não sentiriam o ferro em brasa nem o azorrague nem o eleito das cadeias. O
padecimento físico se transformava em êxtase de alegria. Não se pode dizer que
essas pessoas se achassem sob o império de um frenesi religioso; já não há
razão tampouco para dizer-se que elas eram inspiradas por Deus para suportar o
sofrimento. A pura verdade é que Deus implantou no ser humano uma força que
subjuga e domina os padecimentos; ela pode ser posta em ação desde que se
descubra o seu verdadeiro estimulo e a aplicação dele. Em alguns casos, esse
estímulo se tem revelado sob a forma de um choque repentino, causado por
notícias alarmantes, como nos casos de pessoas que se acham na cama e que
repentinamente se encontram curadas dos seus achaques, ao recebimento de uma
notícia aterradora. Ela pode, também, tomar perfeitamente a forma de uma
sugestão hipnótica, como quando o operador ordena ao padecimento que
desapareça.
A
ação das relíquias usadas como meios de cura. -Esta forma pode
transformar-se em uma superstição, como no caso da célebre grua de Sant'Ana de
Beaupré, de Quebec, visto que muitas pessoas aflitas são anualmente curadas de
moléstias inveteradas. Ela pode abraçar também a forma de uma auto-sugestão e
de uma afirmação positiva, assim como se dá, em geral, nos casos da
"ciência cristã" e do "novo pensamento". O fato a reter é
que a força é sempre real. Ela ali está e, sejam quais forem os meios que as
façam agir, ela é sempre a mesma.
O alívio do sofrimento pela indução do
sonambulismo passivo. -Se sois chamado a produzir a analgesia a um
paciente preparado para sofrer uma operação cirúrgica, deveis hipnotizar o
paciente diariamente e, pelo menos, com duas semanas de antecedência. E bom
também, na prática, repetir cada dia as mesmas sugestões, que deverão ser
feitas da maneira seguinte: -Quando o paciente jaz em estado de profundo sono,
deveis dizer-lhe: -"Penso que vos conviria dar hoje um passeio ao campo;
desçamos agora para sair na carruagem que nos espera. Neste momento, eis-nos
levados pelos campos a grande distância das ruas da cidade, longe de todo
barulho e toda animação. Estamos agora junto à borda da floresta. Estais vendo
árvores, ouvindo pássaros a cantar, vendo flores a desabrochar na orla da mata
e a cena vos impressiona como se fosse um espetáculo de uma beleza prodigiosa.
Vamos apear aqui e deixaremos a carruagem: divertir-nos-emos em ir a esmo pela
floresta. Tomai por este carreira à esquerda, eu tomarei pelo da direita e
encontrar-nos-emos mais tarde. Dir-me-eis, então, onde estivestes e o que
vistes na vossa excursão. Experimentareis uma sensação de contentamento e
felicidade, um sentimento de liberdade, um gozo como se tivésseis, enfim,
enxotado todo sofrimento e toda pena. Nada vos magoará. Não sentireis dor
alguma. Seja qual for a natureza da pena, não podeis senti-la neste
momento".
Experiência sobre a atividade do sonho. -Produzistes
no paciente um estado de sonambulismo passivo, o que lhe faz crer que, em
realidade, ele se acha na floresta. Para ele não é um sonho, mas uma realidade.
As expressões de delícia que se lhe esboçam nos lábios e a mudança em toda a
sua atitude mostram quanto ele acredita na realidade das coisas que se lhe
apresentam. Ele sente-se agora completamente feliz. É então, conveniente que o
submetais a diversas provas ligeiras como, por exemplo, beliscar-lhe
fortemente a carne, fazendo-o acreditar que está no fundo da floresta.
Repetindo-lhe com perseverança que ele não pode mais sentir pena e que está à
vontade e completamente feliz.
A renovação do sonho. -Renovando-lhe essa
visão, dia a dia, com ligeiras variações que julgardes a propósito agregar-lhes,
ligai-lhe no cérebro a idéia da excursão na floresta à do prazer. Quando chega
o momento da mesma operação, é bom repetir substancialmente a mesma sugestão
que lhe inspirastes durante semanas antes da operação. Antes que seja levado do
seu leito, adormecei-o e levai-o, em seguida, para a mesa das operações. Em
todos os casos, é sempre útil ter sob a mão um colaborador competente,
principalmente se a operação é dolorosa, a fim de que o clorofórmio seja
administrado sem falta, no caso em que o estado nervoso do paciente se torne
bastante forte para triunfar sobre as sugestões do operador.
A idiossincrasia dos pacientes sob a influência
do hipnotismo. -O estudo da anestesia hipnótica é muito estranho, porque
não há dois pacientes semelhantes. Em certos casos, o paciente está mergulhado
num estado de letargia profunda e não presta atenção alguma à operação. Em
outros casos, ele se levantará, assistirá ao operador e vigiará o progresso da
operação com o mesmo interesse que qualquer outro assistente. Sucede também que
o medo da operação é bastante para dissipar a força da sugestão hipnótica e
que o paciente se desperta no momento da ação do sofrimento. Para combater esse
estado nervoso é que o médico deve ter sempre à mão clorofórmio, para dele
servir-se em caso de necessidade.
O efeito do coma. -Nos tempos idos,
quando o profundo sono mesmérico era aplicado pelo Dr. Esdaile, os seus doentes
passavam para o estado comatoso, muito semelhante ao estado de profunda
letargia, e durante cinco e mesmo sete horas. Raramente o paciente acordava
enquanto durava a operação, mas quando isso sucedia, um simples mandado bastava
para fazê-lo readormecer profundamente. Neste caso, fazei sempre agir as vossas
sugestões na direção da indução de um sono cada vez mais profundo. Tendo achado
bom produzir um ligeiro sono hipnótico, os operadores hodiernos decidiram que,
num grande número de casos, o hipnotismo ligeiro é tão favorável a aplicação
da analgesia quanto o hipnotismo profundo.
Hipnotismo profundo. -É o fato para
assinalar: -nenhum dos nossos operadores modernos pôde conseguir operar num
doente sem dor, pela ação do hipnotismo ligeiro. O hipnotismo extremo tem uni
grande valor; o sono profundo permite ao operador o assegurar-se da cega
obediência do cérebro do doente. A sugestão do desaparecimento da dor e
conseqüentemente aceita pelo paciente como uma verdade. Com a aplicação do
hipnotismo ligeiro, uma sugestão semelhante não seria admitida e ficaria sem
efeito.
LIÇÃO XIX
Fatos concernentes ao hipnotismo instantâneo.
–Ainda que muitas pessoal tenham julgado ser possível, por uma palavra ou
um olhar, hipnotizar imediatamente pessoas que se encontram pela primeira vez,
ainda que tais pretensões não gozem, em geral, senão de um crédito medíocre,
deparam-se-nos, entretanto, alguns casos bem raros de hipnotismo instantâneo.
Já vos o foi explicado como, de acordo com a sugestão pós-hipnótica, parecia
ao espectador que a pessoa mergulhada repentinamente num sonambulismo profundo
tinha sido hipnotizada instantâneamente a um sinal dado pelo operador; mal já
foi também demonstrado que esse resultado só era devido à eficácia da sugestão
pós-hipnótica, cujo efeito era dispor o paciente para daí em diante cair num
sono imediato logo que o operador quisesse manifestar esse desejo. Compreendeis,
portanto, que a questão de hipnotizar repentinamente uma pessoa que se encontra
pela primeira vez, se classifica numa categoria inteiramente especial.
Dois métodos se acham, entretanto, em presença
um do outro, dois únicos pelos quais esse fato notável pode efetuar-se.
Um método de teatro. -Só no teatro é que o primeiro pode ser empregado
com probabilidades de bons resultados; por que o seu bom êxito depende
inteiramente do esplendor e brilho da cena, acrescentado por uma sensação de
ansiedade e temor, coroado pela confiança absoluta que o paciente tem no poder
do operador.

Ação prodigiosa do medo. -Já falei do efeito singular produzido pelo
medo, quando o paciente esta posto num estado conveniente. O fato é que ele
cria um certo descaminho no cérebro do paciente e é assim possível estabelecer
nele, bruscamente, uma sugestão positiva. A força dessa sugestão é tal que ela
fica estabelecida de modo estável no seu espírito. Estou convencido de que
nunca houve e nem haverá milagres. O poder de que os profetas usaram nos tempos
antigos não é devido, penso eu, senão ao conhecimento do domínio do espírito
sobre a matéria, quando estes dois elementos entraram em luta. A história de
Naaman, o Sírio, nos é familiar a todos, como a punição que foi infligida a Gehazi,
servo de Elisha. Hoje em dia, parece-nos inteiramente incrível que um
individuo, anteriormente são e vigoroso, fosse repentinamente atacado de lepra,
e atribuímos tal resultado a um efeito terrível do medo, produzido pela
sugestão. Eu não queria, aliás, negar a possibilidade de tal fato,
principalmente se o paciente foi primeiro presa de um medo extremo, de que se
serviram para transmitir-1he a sugestão. O medo tem também um poder
paralítico sobre o sistema muscular.
A sua aplicação em cena. -Em muitas
representações públicas, sucede, as mais das vezes, que o operador pede que,
dentre os circunstantes, algumas pessoas de boa vontade venham à cena fazer-se
experimentar; ele não o faz senão quando acabou de conduzir as experiências
ordinárias com os pacientes pessoais, sempre tidos à mão para esse efeito.
Nessas ocasiões acontece, às vezes, que alguém é impelido, por gracejos dos
amigos, a afirmar que não tem receio de se deixar operar pelo professor, mas a
lembrança de tudo quanto acaba de ver, assim como o receio de uma força
invisível que ele não explica, o dispõe às mais vivas apreensões; ainda que
apresente uma fronte radiosa, jaz, em realidade, enervadíssimo. O seu amor
próprio veda-lhe o retirar-se e ele sob à cena com o rosto confiante. Naturalmente,
o professor que é hábil na matéria, percebe bem depressa sinais de medo que
acaba de manifestar o seu paciente voluntário e pode, num relancear de olhos,
ler-lhe no rosto. Ele sabe que, se pode surpreendê-lo e transmitir-lhe a sua
sugestão não terá trabalho em fazê-lo adormecer profundamente, visto que o medo
que ele experimenta o torna uma presa fácil para uma sugestão rápida. Mas a
sugestão rápida, empregada só não seria bastante forte para produzir um desvio
imediato dos sentidos e sabemos que esse desvio é necessário para treinar o
hipnotismo instantâneo.
Método empregado. -Conseguintemente, o professor
adianta-se até a boca da cena e, no momento em que o paciente toma pé nela,
ele põe-lhe repentinamente a mão sobre a nuca, de modo que deixe
no público a impressão da sua diligência pessoal em vir-lhe em auxílio.
O seu efeito real é aumentar o desvio do espírito do paciente. O professor não
deixa de aproveitar-se disso e sem perda de tempo, aplica-lhe fortemente sob o
queixo a palma da outra sua mão; isto dá-lhe, repentinamente, uma sacudidela
nervosa na coluna vertebral, a qual tem por efeito imediato
adormecer-lhe a sensibilidade. Segue-se um ligeiro roncar nos ouvidos e
o paciente julga que vai perder os sentidos. Esse momento é que o professor
escolhe para gritar-lhe bem alto, com voz decisiva e peremptória: "Dormi,
dormi depressa, ides já e já adormecer-vos profundamente". Em muitos
casos, este método dá bons resultados; o paciente revira os olhos e cai, nesse
momento, num estado de sonambulismo. Este método de hipnotismo instantâneo é
naturalíssimo, mas o seu mecanismo permanece oculto ao público. A sacudidela
do mento é apenas visível aos espectadores e, além disso, ela não é dolorosa
nem brutal, como se poderia acreditar. Executa-se com muita presteza e dá
sempre excelentes resultados.
Existe outro método instantâneo, por meio do
qual se pode, algumas vezes, passar o sonambulismo num paciente, sem ter de se
preocupar de nenhum dos trabalhos intermediários da indução ao sono, que foram
tratados nesta série de lições. Este método tem por objeto deter,
inopinadamente, a atenção do novo paciente, atemorizando-o no momento em que
menos espera. Um porta-lápis de prata é tão bom como qualquer outra coisa para
induzir espontaneamente à hipnose. Chega-se a este resultado colocando
repentinamente, diante dos olhos do paciente, um objeto brilhante, como um
porta-lápis de prata, por exemplo. Importa afirmar fortemente que não pode
desviar dele a sua vista e que é forçado a seguir-lhe os movimentos em qualquer
direção. Podeis natural e claramente inteirar-vos de que, se o paciente tem
tempo de raciocinar sobre o que se passa, verá que um objeto como um
porta-lápis de prata não será nunca bastante forte para cativar a sua atenção e
arrastá-lo para qualquer parte, contra a sua vontade; o operador não lhe deixa
tempo para essa reflexão.
Sugeslões rápidas. -O paciente será
constantemente atuado por sugestões que tem por efeito fazê-lo sentir-se
atraído pelo porta-lápis, de modo que ele não possa perde-lo de vista que ele
seja obrigado a segui-lo e que veja quanto seria inútil para ele lutar contra a
sua influência. Sucede, as mais das vezes, que o paciente olha com olhar
vitreo o porta-lápis e que ele se move no sentido do deslocamento desse objeto.
Enquanto está em movimento, o operador põe-lhe as mãos sobre os olhos e diz:
"Estais completamente acordado, mas vos é impossível abrir os olhos".
A partir de tal momento só lhe resta um passo a dar para chegar à
indução do sonambulismo, das suas ilusões e das alucinações que o acompanham.
A hipnose pela telepatia. -Existe outro
método de hipnose espontânea, mas é de tal maneira duvidoso na sua natureza que
é difícil aceitá-lo como desempenhando um grande papel no emprego desta
potência; é a hipnose pela telepatia ou estado hipnótico produzido pela
transmissão do pensamento. Neste caso, o operador adquiriu a faculdade de
projetar o seu pensamento. Acontece freqüentemente que, em algumas ocasiões, um
paciente feminino se toma de tal modo em estado de relação com ele que a mulher
assim escravizada tem imediatamente consciência da sua presença e do seu poder,
embora não tenham trocado uma palavra. O operador pode, assim, em alguns casos
extraordinários, conseguir ordenar-lhe silenciosamente que durma.
Tais casos se encontram às vezes. -Ainda que raros,
estes casos não são menos reais e parecem sempre apresentar-se sob o mesmo
caráter, isto é, que uma vez acordado o paciente, declara ter distintamente
ouvido alguém, que ele tomava pelo operador, dizer-lhe ao ouvido: "Quero
que durmais, dormi imediatamente". O poder de projetar assim o pensamento
é tal que cada um deveria praticá-lo constantemente; é a Energia, e a projeção
do Pensamento é a projeção da Energia através do espaço, pela vontade e pelo
desejo.
A filosofia do poder da vontade no Mesmerismo.
–Os primeiros mesmerianos ligavam mais importância à ação de levar os seus
pacientes ao sono pela sua vontade ou pelo seu desejo, do que ao magnetismo que
residia nos passes empregados para esse fim. Farieis, pois, muito bem em
lembrar-vos de que, na produção de qualquer dos fenômenos psicológicos, as
vossas sugestões, para chegardes ao resultado que desejais produzir, deveriam
sempre ser reforçadas por uma vontade muito forte e um interesse poderoso, de
modo que possam realizar-se.
LIÇÃO XX
Suscetibilidade dos pacientes -Vamos consagrar
inteiramente esta lição ao exame dos métodos devidos a experiência dos maiores
hipnotistas do mundo e provenientes das fontes que, até o presente, têm
permanecido inacessíveis ao público. Ouvís os operadores dizerem,
freqüentemente, que tal e tal paciente está "pegado", quando
conseguiram fazer passá-lo para o sonambulismo e posto que simples, essa
palavra tem uma significação importantíssima. Querem dizer com ela que, quando
um paciente atingiu um certo grau de hipnose, não terão dificuldades em
mantê-lo nesse ponto ou fazê-lo passar de novo para um estado similar, tantas
vezes quantas quiserem.
Um método para operação- -Um operador meu
conhecido tinha por método favorito colocar os pacientes numa cadeira, a fim de
estudar neles o efeito da primeira hipnose e dizia-lhes: "Fechai os olhos.
Revirai-os debaixo das pálpebras o mais alto e o mais para trás que puderdes na
cabeça, fazendo todo o possível para olhar para trás no vosso cérebro.
Sugeri-vos agora, e com toda a força, que sois incapazes de abrir os olhos;
tratai de levantar as pálpebras, cuidando, ao mesmo tempo, de manter os vossos
olhos completamente na Vossa cabeça. Não podereis consegui-lo, sejam quais forem
os esforços que fizerdes. Conservai as Vossas idéias e os vossos olhos no mesmo
lugar, no cérebro, e ides, no mesmo instante, passar para uma profunda hipnose.
Não percebereis nenhum ruído na sala e não vos ocupareis absolutamente senão da
minha voz". Este método tem dado bons resultados, e o abaixamento das
pálpebras, quase sempre, tem lido seguido

de sonambulismo.
0utro método que dá os mesmos resultados
satisfatórios. -Outro método para levar prontamente ao sono é pedir ao paciente
que olhe para a ponta do nariz; isto o torna vesgo e cansa o nervo ótico.
Auto-hipnose. -Existe outro método em
matéria de auto-.hipnose, que podeis vantajosamente tentar em vós mesmos, a fim
de dormir de noite; é tapar os olhos até que eles fiquem inteiramente
fechados. Permiti-lhes, assim, que se façam vesgos como desejam, mas cuidai em
não fechá-los inteiramente. As pálpebras devem aproximar-se uma da outra, até
quase se tocarem e a cabeça que fique levemente lançada para trás, a fim de
permitir ao olhar o dirigir-se para os pés. O resultado é correspondente a um
peso das pálpebras que é o precursor do torpor e do sono.

Rotação da cabeça. -Entre os hipnotistas de
teatro que desejam ardentemente influenciar um paciente refratário, é muito
frequente dar-lhe a segurar na mão um objeto brilhante e fazê-lo olhar para ele
atentamente durante alguns instantes, imprimindo, em seguida, na sua cabeça um
movimento de rotação e renovando essa operação quinze ou vinte vezes, sem
violência, naturalmente, mas de modo que perturbe consideravelmente a circulação.
O resultado procurado manifesta-se frequentemente pelo alivio de uma congestão
anterior e pela produção do entorpecimento pedido.
Magnetismo da água. -Os primeiros
magnetizadores tinham por costume favorito trazer nas mãos um copinho de água,
molhar nela, em presença do paciente, dois dedos da sua mão direita e
fazer-1he notar que eles iam transmitir o seu magnetismo à água pela força de
vontade; diziam-lhe, em seguida, que, se bebesse aquela água, sentiria
imediatamente todos os sintomas da aproximação do sono, tornando, assim, a
produção do sono magnético muito mais fácil e viva.
Magnetismo do papel -Alguns dispensavam a água, mas
magnetizavam dois pedaços de papel, mantendo-os, durante algum tempo, na mão
ou em presença do paciente e dirigindo para eles o seu pensamento. Em seguida,
davam-nos ao paciente, pedindo-lhe que fechasse os olhos e que mantivesse os
pensamentos fixos sobre as sensações que ele experimentava ao contacto do
papel magnetizado que tinha na mão. A concentração das idéias produzia o seu
efeito, trazendo com rapidez a hipnose, porque o papel magnetizado contribuía
para isso, por pouco que fosse.
A sugestão do sono pela eletricidade- O
estudante de psicologia não aprecia no seu justo valor o emprego da bateria
elétrica como auxiliar da sugestão- Não se pode dar sugestão mais eficaz do que
a corrente elétrica de uma bateria, considerando-se esta como tendo um efeito
especial sobre o sistema nervoso ou simplesmente atribuindo-se esse efeito à
potência da sensação obtida sobre a idéia de um sono iminente. Alguns dos meus
pacientes têm entrado num estado de hipnose dos mais profundos sob o estímulo
de uma ligeira corrente elétrica duplicada por uma forte sugestão, conquanto
eu ainda não tivesse anteriormente produzido sobre eles senão uma ligeira
impressão devida ao emprego das sugestões verbais sós.
O emprego do cristal -Tenho
freqüentemente aconselhado o, emprego do cristal para o desenvolvimento
daquilo que é conhecido sob a denominação de "fascinação do cristal"
como um meio de aumento da concentração e que dá um grande passo para o
desenvolvimento da faculdade de ser hipnotizado. Essa qualidade é tão
particular e, em alguns casos, se aproxima tanto da clarividência, que a gente
pode dizer que lhe é idêntica, mas a "fascinação do cristal" não
acarreta, na maior parte das ocasiões, senão essa atividade inconsciente que
caracteriza o estado sonambúlico. Tomai qualquer superfície polida - um disco
de prata, por exemplo, ou, o que é melhor, um cristal - pedi ao vosso paciente
que se assente, colocando-o diante dele e olhando-o durante cerca de um quarto
de hora, cada manhã e cada tarde, sem dele desviar a vista. Dizei-1he que
espere assim, até que uma imagem qualquer se lhe apareça ostentosa à vista.
A visão dos coisas no cristal. -Ainda que
as doze primeiras sessões possam permanecer sem nenhum resultado, a faculdade
de vêr os objetos no cristal se desenvolve com o tempo e a sua contemplação
aumenta gradualmente o poder de vêr com perfeição o reflexo das imagens
pintados na sua superfície. Quando este poder se acha inteiramente
desenvolvido, ele se sente capaz de projetar à vontade a imagem de toda pessoa
que ele deseja ver. A semelhança desse poder com a clarividência é, às vezes,
ilustrada de maneira empolgante, quando o paciente vê não somente a pessoa que
ele deseja ver, mas ainda, sob uma forma alegórica, o que a pessoa faz no
momento da sessão- Ele pode, assim, ver escritas sobre o cristal palavras em
relação com o quadro e pode receber noticias telepáticas do original do mesmo.
A hipnose depende da atenção e não da
circulação do sangue. -Não é exato dizer-se que a hipnose depende tanto
da circulação que ela pode talvez ser produzida somente quando a cabeça está
fresca e quando o sangue deixou o cérebro, muito pelo contrário, a hipnose
produz-se, freqüentemente, no momento de um estado de congestão cerebral,
quando tudo permite pensar que o cérebro está cheio de sangue. É opinião
minha que a hipnose depende quase que inteiramente da atenção profunda do
paciente, seja qual for a maneira pela qual nos apoderamos dela. Por
conseguinte, aconselho-vos que, além de outros métodos, empregueis nos Vossos
pacientes os da respiração muito lenta e profunda, de maneira que se convençam
de que, prestando toda a sua atenção a esta ação de respirar, passarão tão
facilmente para o estado hipnótico como se, em outro caso, a sua atenção
estivesse presa por objeto brilhante.
Método de indução ao sono pelo acréscimo do
carbono no sistema. -O oposto desta teoria é igualmente exato e, em muitos
casos, pessoas que se negaram obstinadamente a ceder por qualquer outro método,
cairão numa hipnose profunda se as treinardes a suster gradualmente sua
respiração de modo que a torneio muito lenta e insuficiente para a suas necessidades;
determinareis nelas, destarte uma sensação de inquietação. Perguntar-me-eis
porque alguns faquires indianos e homens santos conseguiram cair nos estados de
catalepsia que se parecem com o fenômeno; responder-vos-ei que eles
desenvolveram em si a arte da concentração até à perfeição, fixando a sua atenção
sobre os fatos da respiração e interceptando esta até o momento em que o
sistema se torna saturado de ácido carbônico. É um processo de
envenenamento lento que, levado ao extremo, causaria algum prejuízo ao corpo;
mas se é empreendido sem nenhum receio ou ansiedade, o seu efeito imediato é ir
diminuindo a ação do coração, trazendo o torpor pela interceptação do oxigênio
do ar e produzindo, assim, um entorpecimento de que quase não se encontra
paralelo senão no caso em que entramos num quarto onde a atmosfera está
sobrecarregada de ácido carbônico. Notareis que tais casos são sempre seguidos
de uma sensação de peso que se transmuda em torpor. Este último estado e o
último sono profundo se denominam auto-inductos, quando são a conseqüência de
um ato da vontade que tem por objeto tornar lenta a respiração.
Conversão do auto-hipnotismo em hipnose própria.
-Se se encontra um operador à mão, cujas sugestões podem ser recebidas pelo
paciente, o estado da auto-hipnose toma-se, então, o estado de hipnose e o
paciente obedece às sugestões do operador. Mas se este último falha, o paciente
permanece na condição de auto-hipnose até o momento em que ele se decidir a
acordar.
Meio para empregar a auto-sugestão. -Antes de
pôr-se sob a influência, ele pode, desta maneira, deliberar se dormirá uma hora
ou duas. Ele pode fazer a si mesmo sugestões semelhantes às que o operador
poderia sugerir. Pode libertar-se de toda dor, tanto quanto este último poderia
fazer. Não avaliará o fenômeno admirável que produzirá a sugestão passada por
outrem, mas ele pode curar-se de muitos incômodos de pouca monta e pode
positivamente curar-se do seu nervosismo, da sua insônia, da falta de
confiança, da sua memória defeituosa, da sua fadiga depois de um fraco
exercício, dos seus maus hábitos, etc. Ele pode, deste modo, fazer muito bem a
si próprio, melhorando o seu caráter e a sua saúde.
Método para provocar a fadiga muscular. -O
método seguinte é importantíssimo para produzir a hipnose num paciente que não
parece influênciar-se pelos métodos ordinários. Fazei-o manter-se de pé e
dizei-lhe que respire longa e profundamente, que levante os braços e os dobre
na altura dos cotovelos, que sustenha a respiração por uns oito segundos;
dizei-lhe, em seguida, que, por efeito da sua vontade, tenha rígido e firme
cada músculo do seu corpo. Os braços, as pernas e as costas podem, assim,
enrijecer-se enquanto ele retém a sua respiração. Quando escoarem os oito
segundos, ele deve afrouxar repentinamente cada músculo do seu corpo e tomar
outros oito segundos de descanso, respirando vagarosa e profundamente pelo
nariz. Fazei-Ihe, então, repetir o mesmo exercício supra indicado, respirando
outra vez profundamente e retendo a respiração por oito segundos, durante os
quais ele enrijece todos os músculos do seu corpo. Permiti-lhe que se afrouxe
de novo durante oito segundos e repeti esse exercício durante dez minutos. Ao
expirar esse lapso de tempo, ele se queixará de uma fadiga física e pronunciada,
da qual podereis tirar partido para fazê-lo assentar-se na poltrona e olhar
para um objeto brilhante. Quando os movimentos do seu coração volverem ao
estado normal, não pararão ai, em razão do trabalho que ele acaba de
experimentar; o seu coração palpitará mais lentamente que de costume e uma
sensação de lassidão acompanhada de torpor seguir-se-á e o absorverá por
inteiro. Nesse momento, as Vossas sugestões verbais produzirão o efeito
desejado, efeito que não se teria produzido se o seu cérebro e o seu corpo
tivessem ficado ativos e isentos de todo cansaço.
LIÇÃO XXI
Clarividência, o que é. -Entre os camponeses da
Escócia e mais especialmente da Dinamarca, não é raro encontrar-se pessoas, em
cujas famílias o dom a que eles chamam de segunda vista tem sido transmitido
desde séculos. Segunda vista não é senão a segunda denominação daquilo que
agora chamamos clarividência e parece ser o reflexo do conhecimento intuitivo
que tem sido conferido a certos indivíduos, graças ao seu anormal estado mental.
Ainda que, a tal respeito, a clarividência seja assaz comum, ela pode, no
entanto, ser desenvolvida pela hipnose e muitas profecias admiráveis tem sido
anunciadas pelos pacientes clarividentes sob a influência hipnótica. Isto
mostra, pois, que não se deve confundir a força em si mesma com o poder de ler
no espírito das pessoas presentes ou das pessoas afastadas.
Diferença entre a clarividência e a transmissão
do pensamento. -O que distingue a clarividência da telepatia é que esta
última não se ocupa senão das coisas que se deram ou estão se dando no mesmo
instante, pelo conhecimento das pessoas que estão em relação com o paciente;
enquanto a clarividência se ocupa mais particularmente da profecia ou da
predição de sucessos que estão ainda por vir.
Os fenômenos de clarividência são variados e
maravilhosos até o extremo e quando se vos der as instruções necessárias para
produzirdes a clarividência nos melhores pacientes, tomarei a liberdade de
citar, entre os anais da história, um dos numerosos casos do poder da
clarividência concedido a seres humanos e aparentemente recusado a outros.
Como desenvolver a clarividência nos pacientes.
-Para conseguirdes desenvolver a clarividência nos pacientes, importa,
antes de tudo, que façais uma boa seleção dos Vossos melhores sonambulistas,
porque tereis muito mais probabilidade de achar entre estes últimos quem possa
tornar-se clarividente do que naqueles que não caem senão nos casos de hipnose
muito ligeira. Se achardes um paciente que, ao despertar, não se lembre de
nenhum dos fatos que se têm passado durante o seu sono, que segue integralmente
as sugestões pós-hipnóticas e no qual podereis à vontade fazer passar o
fenômeno da ilusão dos sentidos, esse paciente poderá, pelo entrenamento, entrar
nas condições mais profundas da vista clara ou da clarividência. Semelhante
pessoa será não somente capaz de produzir os sucessos com uma precisão
extraordinária, senão que poderá ainda dar uma súmula exata das coisas que se
passam ao longe, podendo aparentemente e à vontade lançar o seu espírito à
aventura, enquanto o seu corpo fica inativo sobre a cadeira.
Prova de clarividência. -Para fazerdes a
experiência da clarividência no paciente, começai por mergulha-lo num sono
profundo, e então, estando a seu lado, dizei-lhe: "Afastai-vos cada vez
mais, dormi profundamente e libertai o vosso espírito de todo embaraço para
permitirdes que viaje a seu bel prazer
por onde lhe aprouver, com o fim de dar-vos informações do que se passa em
países onde nunca esteve". Nesse momento, tornai o sono mais profundo,
fazendo novas sugestões e dizei: "Contar-me-eis tudo o que virdes,
dir-me-eis tudo o que estais presenciando com os olhos do espírito no caminho
que seguis. Vou, agora, fazer-vos atravessar o mar e ides dar-me uma narração
exata do que se está passando em minha casa, na Inglaterra, e uma descrição das
pessoas e dos lugares que visitardes. O espírito tem asas e ides imeditamente
levantar o vôo. Agora atravessareis o mar e chegareis; dizei-me onde estais e o
que estais vendo".
Uma viagem de clarividência. -Deste modo,
fareis, por assim dizer, passar por diante dos olhos do vosso paciente um
panorama da viagem que o seu espírito fizer, conforme o vosso desejo. De
maneira confusa, ele vai fazer-vos uma narração das coisas que se vê e não
poderá descreve-las perfeitamente senão depois de tentativas repetidas.
Inteirai-vos bem da evidência dos seus dizeres e não o desanimeis por uma
palavra nem por um olhar, criticando-o. Para chegar a desenvolver nele a
clarividência, deveria fazer-lhe as sugestões mais animadoras. Ele deve ler a
tentação do valor do ato que está realizando e as Vossas instruções deverão ser
reforçadas por um aviso, a fim de fazer-lhe saber que não há de repelir senão o
que está vendo; e socorrei-o constantemente com os vossos conselhos.
Evitai o crítica Severa. -Neste caso, cumpre-vos
pôr de parte toda obstrução e todo criticismo particular a cada investigador.
Não deveis esquecer que estais tratando, não com um individuo normal, mas com
um organismo sensível no mais alto grau, fortemente acessível à menor suspeita
e muito disposto a se opôr a toda injustiça. Não tereis muita razão de
desconfiar da honestidade dos pacientes que houverdes assim desenvolvido pelo
hipnotismo. É muito melhor tomar um paciente novo para desenvolvê-lo do
que experimentar com um profissional. No primeiro caso, obtereis
verossimilmente informações dignas de confiança, embora queira crer que a maior
parte dos médiuns de profissão sejam perfeitamente honestos na sua opinião e
nas suas comunicações.
História autêntica de um fenômeno raro de
clarividência. -A narração seguinte, representando alguns fenômenos de
clarividência que se reproduziram no ano de 1842, foi garantida como autêntica
pelo Rev. Leroy Sunderland, investigador bem conhecido; citamo-los aqui não
porque os fenômenos mencionados não tenham sido reproduzidos nos tempos
modernos, mas porque o próprio fato já não se encontra, hoje em dia, na prática
e porque me caiu às mãos de modo curiosíssimo. Depois de alguns pormenores
dados sobre os fenômenos do magnetismo, o autor prossegue:
"Ninguém, a não ser eu próprio, é capaz de
acordá-la. Ela não poderá falar a ninguém, a menos que eu consinta que o faça,
ponde de antemão a terceira pessoa em contato com ela pela junção das mãos.
Suspensão do sentido da audição.
-"Ela não poderia ouvir senão a minha voz ou um ruído feito por mim;
ouvidir-se um tiro de espingarda a 30 centímetros da sua cabeça, sem que ela
manifestasse o menor sinal de haver percebido o som. Com os olhos fechados, ela
dirá exatamente quando eu como e quando bebo, quando deixo o meu quarto e
quando volto a ele. É bom lembrar-vos que nenhum de nós tinha sido
testemunha de tal coisa e não estava preparado para a maior parte destes fenômenos.
Transmissão do gosto. -"Uma noite,
enquanto ela dormia assim, passaram-se maçãs, uvas e nozes. Eu comia uma maçã,
quando ela fez esta observação: "Estas maçãs estão magnífícas".
Tomei algumas uvas e perguntei-lhe o que eu estava comendo; respondeu-me sem
se enganar. G. ofereceu-me vinagre que eu saboreava, quando ela exclamou:
"Que intentais fazer com esse líquido?" G. deu-me, em seguida açúcar,
e assim por diante, até que nos persuadimos de que tinha consciência de tudo
quanto eu comia e saboreava. Ela estava colocada numa posição tal que não
poderia ver com seus olhos o que eu comia, mesmo abrindo-os.
Transmissão da sensação. -"Descobrimos,
em seguida, que embora ela própria fosse insensível à dor corporal, experimentava,
não obstante, cada dor que me era infligida. Supondo que me picavam na mão, ela
se lançava no mesmo instante para trás e esfregava-se na mesma parte em que eu
tinha sido picado. Se me puxavam pelos cabelos, ouvi-la-íeis perguntar logo:
"Quem me está puxando os cabelos?"
Transmissão do pensamento. -"Percebi,
mais tarde, que ela era levada a falar de coisas nas quais eu estava pensando
no mesmo instante e, finalmente, numa noite em que púnhamos à prova o seu
estranho poder, pus um pedaço de maçã na boca, declarando: "Como são boas
as uvas que estou comendo!" e ela respondeu-me: "Não vos deis ao
trabalho de me enganar, pois conheço as vossas intenções e pensamentos; sim,
conheço exatamente cada um dos vossos pensamentos". "Pedi, então, a
uma terceira pessoa que escrevesse num pedaço de papel diversas questões que
versavam sobre coisas que não a interessavam e tais que ela não poderia
naturalmente responder. Tomei, pois, o papel e, assentando-me ao lado dela,
fiz-lhe mentalmente cada pergunta, isto é, sem falar ou fazer bulha. Quando eu
ia fazer a mim mesmo estas perguntas, ela se põe a falar e a responder às
perguntas uma, após outras.
"Notai que não disse uma só palavra desde o
momento em que recebi o papel até àquele em que respondeu à última pergunta.
"Por essas experiêncías e outras subseqüentes, ficamos convencidos de que
ela estava inteiramente consciente de tudo quanto se me passava no espírito.
Vista do mecanismo interno da corpo. -"Uma
noite em que eu me achava ligeiramente endefluxado e com tosse, coloquei-a
naquele estado. Perguntaram-lhe se podia curar-me o defluxo, ao que ela
respondeu: "Deveis prestar-lhe muita atenção para evitar que o defluxo se
estabeleça nos pulmões; porque estou vendo que eles estão inflamados".
Fazendo-1he outras perguntas, fiquei convencido de que ela via e conhecia o meu
organismo interno tanto quanto o dela. Chego, agora, a um fenômeno que parece
dos mais extraordinários. Quero referir-me à clarividência ou ao poder de ver o
que te passa ao longe. Nesta faculdade ou no exercício desta faculdade, ela me
parece fazer progresso em cada sessão, absolutamente como alguém que, pela
prática, chegaste a aperfeiçoar-se em cada ação; as nossas experiências ainda
não estavam muito adiantadas no momento em que ela entrou a cair por si mesma
nesse sono.
Experiência de clarividência. -"Pode-se,
entretanto, deduzir dai o bastante para provar que ela seria capaz de dizer o
que se estava passando num aposento pegado ou a uma distância de quatro
quilômetros; ora, assim sendo, por que não poderia ficar em estado de fazê-lo
a maior distância? Ao suas tentativas que, aliás, mostraram a evidência mais
cabal desse poder, podem ser relatados pela forma seguinte: O primo G. ou L.
dirigia-se para o aposento contigo e desarranjava os móveis, virava a mesa,
punha as cadeiras sobre a cama e fazia outras modificações na posição atual das
coisas. Pedindo-lhe que olhasse para aquele aposento, ela exclamava: "Por
que aquelas cadeiras estão sobre a cama? Por que se acham em semelhante
desordem aquelas coisas?" Interrogada mais atentamente, ela descrevia a
situação exata das coisas. Enviei de novo o seu espírito ao meu quarto, situado
no hotel da cidade baixa, distante cerca de quatro quilômetros, e ela nos
pintou o seu conteúdo, dando-nos até a descrição de um quadro que estava
dependurado na parede. Ela nunca tinha posto os pés naquele aposento.
"Muitas tentativas desta natureza nos demostraram que ela possui, de
alguma sorte, consciência de coisas de que nunca havia recebido percepção
natural pelos sentidos. Em ocasiões repetidas, ela me informou do estado das
coisas na casa de meu pai e na do capitão W.; se ai houvesse estado, ela não
teria pintado da maneira mais natural. Entretanto, como não tinhamos tomado
disposições para nos assegurarmos da veracidade dos seus dizeres, não podiamos
estar perfeitamente certos do que ela avançava.
Viagem da alma. -"Entretanto, na
véspera do Natal, mandei-lhe que fosse à casa de W- Começou desde logo pela
forma seguinte: "Almira está doente". Quando lhe perguntaram se essa
pessoa, mencionada estava muito doente, respondeu: "tia tem um defluxo e
alguma febre, mas vai melhor e não se acha tão doente como a principio
julguei". Perguntada sobre o que estavam fazendo as outras pessoas da
casa, replicou: "O sr. W. pai está assentado ao pé do fogo, tirou os
sapatos e está aquecendo os pés. A sra. W. mãe está assentada junto ao fogo e
tem o pequerrucho nos braços- Elisa está lá em cima, prestes a vestir-se ou a
despir-se". Naquele momento, podiam ser nove horas da noite.
"Nunca indaguei a fim de saber se tudo isso
era exato ou não, mas recebi uma carta de minha mãe, a 7 ou 8 de Janeiro,
datada de 24 de Dezembro, véspera do Natal, na qual ela me dizia: "Almira
teve um ligeiro acesso de febre acompanhada de inflamação, mas acha-se melhor
agora". A uma pergunta que lhe foi feita a fim de saber se ela tinha visto
tais coisas, respondeu: "Não me parece have-1a visto com os meus olhos,
mas eu as conheço. Como eu as conheço é que não posso dizer".
Estado lúcido. -Tais foram os fenômenos
provocados numa paciente sensível, sob a influência da hipnose. Os clarividentes
possuem outra qualidade particular, aquela que se chama a faculdade de poder
diagnosticar uma moléstia pelo conhecimento espiritual A esta condição tem-se
denominado lucidez e, em certa época, consideravam-na como sendo um resultado
da hipnose prolongada. Não a tenho encontrado senão raramente, mas nem por isso
é menos verídica e inexplicável, conforme a teoria da sugestão simples.
Quando o paciente se acha mergulhado num sono
profundo hipnótico e quando o fazeis passar desse estado para aquele que dá o
Poder da clarividência, ele é freqüentemente capaz de ver, com a sua vista
espiritual, os orgãos interno do corpo e de diagnosticar a moléstia por meio
desta intuição maior. Se, por exemplo, lhe pedis que vos examine e vos diga o que
tendes, ele responderá mais ou menos o seguinte: "Eu vejo distintamente o
Vosso cérebro"; vejo o vosso coração", "parece estar mais
volumoso", ou "ele se me afigura normal". "Estou vendo os
vossos pulmões, um deles está perfurado; suponho que está afetado da
tuberculose".
Diagnóstico pela clarividência. -Deste
modo ele passará em revista todos os órgãos do corpo e, posto que a vossa credulidade
não seja obrigada a aceitar tudo quanto os vossos pacientes vos digam, talvez
encontrareis algum fenômeno que tenha a aparência de revelação e que não
possais vo-lo explicar.
Tende em conta a indicação que vos é dada,
porque é, talvez, a única entre as demais que melhor vos compensará o vosso
trabalho.
LIÇÃO XXII
Cura do vício da embriaguez pelo hipnotismo. -Para
instruir estas lições, referi-me à cura de certas moléstias, tais como a dor
de cabeça, o reumatismo, o medo, etc. O emprego mais importante que nesse
sentido se pode fazer é o de corrigir o vício da embriaguez e o hábito das
drogas. O seu poder, nestes casos, está fora de dúvida e ainda que exista hoje,
um grande número de curas chamadas do alcoolismo, da morfina e da cocaína, se-
lhes analisamos e lhes sondamos as bases, reconhecemos que consistem
inteiramente em injeções subcutâneas de estricnina, atropina, hiosciamina,
canhamos da India ou alguns outros líquidos excitantes e aumentados pela
impressão constante feita no espírito do doente, levando-o a crer que ele será
para sempre curado dos seus maus costumes pelos tratamentos que lhe fazem
suportar.
Sofisma do tratamento material. -Dando
um pouco mais de extensão à análise desses processos não tardaremos a ver que
os remédios empregados são puros tônicos dos nervos e que a cura de um desses
hábitos não é produzida senão pela ação mental do paciente, segundo as
sugestões que lhe foram dadas no estado de vigília. Há uma verdade que nenhum
prático pode contradizer, e é que a cura de um hábito contraído deve ser
psicológica.
O costume
em si mesmo é proveniente de uma ação mental. Não pode ser cortado à faca; não
é tangível. Seja qual for o hábito contraído, ele é proveniente do espírito e
não pode ser curado senão pelo espírito e como espírito. Esta asserção destroi
todos os argumentos possíveis. É uma verdade evidente por si mesma e não
pode ser refutada. O que a ação mental ocasionou não será dissipado senão pela
ação mental. O desejo imperioso que o espírito fez nascer e que alimentou, não
pode ser assenhoreado e dissolvido senão pelo espírito.
Meio de curar a embriaguez. -É necessário que
vos aproveiteis do sono profundo de um alcoólatra para dar-lhe sugestões
muito enfáticas e importa que elas sejam muito positivas e fortificantes:
Deveis proceder às sugestões pela forma seguinte:
"Possuis uma força de que nunca vos
servistes para ajudar-vos a vos desembaraçar dessa necessidade imperiosa. Essa
força ou esse poder estão desde agora chamados a agir e já não vos sentireis
incapaz de lutar contra esse desejo ardente dos estimulantes que de vós se
apodera. Para o futuro não tomareis a sentir nenhum desejo para o álcool. A
Vossa vida não tem sido senão a de um homem que se tomou inteiramente escravo
do seu cérebro. Desde agora estareis livre dessa servidão. Ides reconhecer que
a força de vontade que possuis está de todo prestes a servir-vos e vos tomareis
um homem, com toda a sua força e interesse. A supressão do vosso excitante não
vos ocasionará nenhuma dor. Fortificar-vos-eis dia por dia e tor-vos-eis menos
nervoso, toda a vossa compleição recuperará a saúde e o vigor primitivo".
Meios empregados para essas curas. -Dai
ao paciente, na primeira semana, um tratamento bicotidiano; na semana seguinte,
bastará um tratamento cotidiano. Será bom continuar até o fim do mês, para
obter uma cura completa. Muito naturalmente e desde o começo da aplicação do
tratamento, tereis de suprimir-lhe toda sorte de estimulantes e deveis, durante
o seu sono, por todos os vossos meios em ação para fazer-lhe ter horror e
aversão ao álcool.
Hábito da morfina e da Cocaína. -É necessário
seguir o tratamento para curar o hábito do ópio e da cocaína, mas importa
recordar que, destes últimos casos, o uso dessas drogas afeta invariavelmente o
cérebro, até tomá-lo enganador e pérfido. Não se pode crer na narração, mesmo
juramentada de alguém que tenha o hábito da cocaína ou da morfina. O senso
moral está geralmente pervertido e a percepção dos princípios do bem e do mal
parece estar obscurecida do paciente por um egoísmo colossal. É necessário
portanto, desde o primeiro tratamento, fazer desaparecer a morfina e a cocaína.
Não há tergiversar
Perigo das curas pelos anúncios -A maior
parte das curas do uso da morfína anunciadas com grande dispêndio de preconício
nos jornais consiste na administração, por pequenas drogas, de morfina
combinada com outras drogas. O paciente exagera muito a angústia do seu corpo e
do espírito pelos temores que experimentará e, às vezes é bom, antes de tratar
de provocar o sistema nervoso e permitir-lhe um sono profundo. Para
inteirar-vos dos maravilhosos efeitos que produz a imaginação sobre o paciente,
basta dizer-vos que quando lhe houverdes feito tomar uma ou duas vezes desse
sulfonal, é inútil continuar-lhe o emprego, e se quereis substitui-lo por um pó
inocente e insípido, derramando-o, na sua presença, num copo com água,
dizendo-lhe que ele produzirá um efeito calmante tão pronto e pedindo-lhe que
se deixe tornar a adormecer profundamente, ele acreditará que está tomando
outra dose de sulfonal e o efeito dessa crença exercerá uma tal ação sobre o
sistema nervoso que logo se tornará passivo e tranqüilo.
Filosofia da "pílula" de pão. -O
poder da "pílula" de pão que os doutores administram aos seus doentes
como um placebo é assim explicado: -A “pílula” não exerce naturalmente nenhum
efeito por si mesma, mas sendo suportada e reforçada pela imaginação do
paciente o efeito que ela produz é o que os doutores desejam que ela preste.
A eletricidade considerada como um adjuvante.
-Na cura do uso das drogas pelas sugestões hipnóticas, aconselharei perfeitamente
o emprego das correntes elétricas médias combinadas com a sugestão, como um
bom meio para produzir um bom sono profundo. Casos se apresentam, às vezes em
que o paciente não julga a sugestão verbal suficiente para curá-lo dos seus
males; Desse momento é que a eletricidade vem reforçar e fortificar a
sugestão. Por mais simples que vos possam parecer os meios a empregar, não
cometais nunca o erro de os desprezar, porque eles impressionam sempre a
imaginação do doente.
LIÇÃO XXIII
Como acordar o paciente. -Deveis acordar
sempre os vossos pacientes, empregando o método que consiste em contar
gradualmente: "um, dois, três, despertai-vos completamente". Não o
desperteis dando-lhe palmadas ou tocando-lhe no rosto ou em qualquer outra
parte do corpo. O efeito produzido sobre os seus nervos leria o mesmo que se
acordásseis repentinamente uma pessoa que estivesse dormindo naturalmente,
lançando-lhe água fria no rosto. Dai-lhe tempo de voltar gradualmente das
profundezas da semiconsciência à vida regular. Alguns pacientes profundamente
adormecidos ficam deslumbrados e estonteados durante alguns momentos, depois do
seu despertar.
Passes empregados para
acordá-lo. -Basta simplesmente permanecer assentado alguns instantes na
poltrona, fazendo-lhe com a mão ligeiros passes desde o queixo até à fronte,
assegurando-lhe que o efeito está prestes a acabar-se e que alguns momentos
depois se adiará muito bem.
Fazei passar sempre as alucinações. -No
caso em que houverdes provocado ilusões e alucinações nos pacientes, tende
sempre muito cuidado em faze-1a desaparecer logo que a experiência estiver
terminada. Vigiai que as impressões que produzistes sobre o espírito dos
vossos pacientes no decorrer das vossas experiências, nele não fiquem
inexplicadas. Dai contra sugestões fortes e positivas e, para conseguir
produzi-las, fazei recair os vossos pacientes num sono profundo. Afirmai-lhe
que ele é forte e muito sadio, livre de toda neurose que as idéias de que ele
foi impregnado durante o sono precedente estão agora e para todo o sempre
apagadas no seu espírito e que, logo que esteja acordado, não sentirá nenhum
padecimento proveniente dessas alucinações.

Auto-hipnose involuntária. -Notareis que muitos dos vossos
pacientes se tomam tão interessados no processo de que usais para adormece-los,
que caem por si mesmos em estado de hipnose no decorrer do dia. Haveis de ser
chamados, algumas vezes, a deixar a vossa casa para ir acordar um doente sobre
quem atuastes naquele dia, porém que, por si mesmo, caiu no estado comatoso de
que só vos podeis retira-lo, acordando-o.
Ação de fazer passar esta tendência. -Se
sois chamado para um caso semelhante, aproveitai a ocasião, antes de despertar
o vosso paciente, para fazer sugestões mais enfáticas, a fim de que não
possa nunca, por si mesmo, ter a faculdade de cair num estado de sono
hipnótico, a menos que não o informeis de que é Vossa intenção que atue
assim. Esta precaução será amplamente suficiente para guarda-lo contra toda a
reprodução deste incidente.
Maneira de imunizar o paciente. -Alguns
pacientes, que têm sido muitas vezes hipnotizados, se tornam tão suscetíveis às
influências que lhe imprimem uma atitude negativa e, na sua vida diária, se
acham em perigo de serem hipnotizados por operadores irresponsáveis. Deveis
sempre imunizar os vossos pacientes, afirmando-lhes positivamente que, a não
serdes vós, ninguém tem o poder de hipnotiza-los. Fazei esta sugestão com
ênfase e de maneira muito positiva, repetindo-a no fim de cada sessão a fim de
fazer com que o paciente sempre se aproveite dela. Não procureis nunca
provocar a hipnose quando vos sentirdes muito cansado ou numa situação de
espírito muito abatido. Se vosso paciente é muito sensível, ele receberá telepaticamente
o vosso estado de espírito e o resultado não será bom.
A provocação da hipnose não Cansa nunca. -Não
achareis que a ação de hipnotizar freqüentemente possa conduzir ao esgotamento
das Vossas próprias forças. O poder se desenvolve com o uso, e embora,
no começo, não seja conveniente fatigar-vos nesta prática, vós podereis, em
pouco tempo, adquirir a força de continuar durante várias horas, sem
experimentar nenhuma fadiga e a vossa saúde geral melhorará até de maneira
clara e sensível.
LIÇÃO XXIV
Pergunta. -Qual é a porcentagem das pessoas que
podem ser hipnotizadas?
Resposta. -Todo e qualquer ser humano, são de
espírito, pode ser hipnotizado, assim como uma grande parte dos que não se
acham sãos de espírito, como os alienados. Alguns rapidamente, outros após
experiências repetidas.
Pergunta. -O hipnotismo predispõe para o
enfraquecimento da vontade?
Resposta. -Não, a menos que as experiências não
sejam feitas para esse fim e reiteradas durante a hipnose. Dever-se-iam sempre
fazer contra-sugestões a fim de que o paciente possa ter confiança no
aumento da determinação do interesse, de uma concentração melhor, de uma
individualidade mais poderosa, de uma confiança maior em si mesmo; desta
maneira e pela força da sugestão, o hipnotismo fortifica a vontade em
vez de enfraquece-la.
Pergunta. -Quanto tempo a influência pode durar desde que o paciente está
acordado?
Resposta. -Se tem sido hipnotizado contra a sua
vontade por um operador sem escrúpulos, é que pode também ser hipnotizado por
alguém que entenda do negócio e a influência do mal ficará para sempre
removida. Somente pessoas de uma sensibilidade extrema é que podem deixar-se
magnetizar sempre, contra a sua vontade. Este caso não se apresenta muitas
vezes e, por conseqüência, é extraordinário.
Pergunta. -Que proteção pode ter uma senhora hipnotizada contra um operador
privado de escrúpulos?
Resposta. -A proteção que o seu regresso instantâneo à consciência lhe poder dar.
O operador não pode vedar que a paciente acorde. Seja qual for a forma
imperativa que ele dê aos seus mandamentos, ela pode despertar-se a despeito
das suas objeções e agirá sempre assim, se, um perigo real a ameaça.
Pergunta. -Suponha que um paciente seja hipnotizado e que se lhe dê como sugestão
o não poder ele lembrar-se do seu nome, ao acordar! Figuremos, agora, que o
operador desapareça de propósito; quanto tempo a memória permanecerá afetada ?
Resposta. -Isso depende dos indivíduos. A
memória permanece, algumas vezes afetada durante dia e meio; porém, as mais
das vezes não se mantém senão até o momento em que alguém agite essa memória
adormecida.
Conclusão.
-Não se pode avaliar em toda a justeza a importância do hipnotismo. Ele pode
curar moléstias nervosas, dores e perturbações intelectuais. Pode dissipar a melancolia negra implantada
no espírito. Por sua ação, as memórias empobrecidas para sempre podem tomar-se
brilhantes como se tivessem sempre gozado dessa faculdade. Pode, como analgésico,
substituir a morfina, se cai nas mãos de um operador competente. Pode reduzir e
até prevenir as dores da parturição, tão bem que as conseqüências da
maternidade não podem, por mais tempo, ocasionar receios.
Ele
pode precipitar a ação do espírito e desenvolver qualidades que tem sempre
permanecido no estado latente. Pode converter a preguiça em amor ao trabalho, a
desobediência em obediência, a ingratidão e desonestidade em deferência para
com os outros. Pode curar costumes tais como o hábito da morfina, da cocaína e
dos licores fortes. E agora e para sempre o próprio remédio para modifícar e
corrigir os seus defeitos. Enfim, ele é assaz suficiente para revelar ao homem
os mistérios do espírito e lhe dar o conhecimento positivo da vida de
além-túmulo.
O hipnotismo nos fornece todas essas vantagens,
por isso, quando em presença dessas maravilhas, nos aparece menor o perigo
possível da sua aplicação errônea por parte daqueles que são incapazes de
adquirir o conhecimento do seu poder! O plano mais sábio é o derramar luz sobre
todos os fatos. Quando uma pessoa souber porque e como o hipnotismo pode ser
perigoso, a metade de seus perigos será abolida. Na prática do hipnotismo, não
é difícil achar homens, cujos móveis são puros e cujo fim é somente nobre e em
vista do bem.
O hipnotismo empregado por um pai sobre seu
filho, por um marido em sua mulher, dá invariavelmente resultados benéficos.
O hipnotismo por si mesmo não é mau. O mal, se
existe, reside no coração dos homens.
FIM!!!